O nascimento e as atualizações de uma carteira de investimentos (2ºS/2019)


Como montar uma carteira de investimentos do zero baseada na estratégia de alocação de ativos?

Veja o plano que minha filha está seguindo e suas atualizações até o final de 2019.

Bônus: faça o download gratuito de uma planilha financeira fundamental para o controle de seu portfólio.


A expectativa desse texto é ajudar pessoas que desejam iniciar sua própria gestão de investimentos, através do método de alocação de ativos, já explicado no blog. Ele mostrará como criar uma carteira de investimentos do zero, baseada no exemplo de minha filha, que iniciou-a em 2018.

A construção de seu próprio plano de investimentos, que pode ser elaborada para diversos perfis financeiros, é uma viagem lenta e certa para sua independência financeira. Vale a pena você se aventurar nesse mundo se desejar ter uma vida de paz e liberdade!

Vamos aos passos iniciais, então? Ou então, guie-se pelo índice para ir à seção desejada.

Como começar um plano e uma carteira de investimentos?

Plano de investimentos financeiros e liberdade

Há tempos tenho procurado passar à minha filha o valor da independência financeira. Possuir a liberdade de não depender da renda de um emprego ou de um trabalho qualquer nos dispensa de trocarmos nosso tempo por dinheiro. Isso significa ser protagonista em escolher o que fazer na sua vida. Liberdade financeira é, muito antes de ser algo relacionado ao dinheiro, representa um vínculo real ao tempo livre.

Construir um plano de investimentos financeiros é muito mais do que simplesmente “economizar”. É investir de manteira correta. Com as taxas de juros em níveis nunca antes vistas no Brasil, manter o dinheiro na renda fixa básica não ajudará a chegada da independência financeira rapidamente. Pior: poderá ser um empecilho para seu alcance. Infelizmente, a maioria das pessoas não pensa em economizar e muito menos, investir bem hoje em dia.

No caso dos jovens, em particular, essa mudança de modelo mental é algo que não deve ser desperdiçado, uma vez que eles possuem um privilégio fundamental: são donos de um tempo maior para que os juros compostos atuem em seu patrimônio, usufruindo a rentabilidade de juros sobre juros desde cedo.

Aproveitar essa fase da vida permite que a liberdade financeira seja alcançada em uma idade que, ainda com boa saúde e com tempo livre, eles possam direcionar seu destino para o rumo que desejarem. Se você é um desses jovens, sugiro a leitura de “Jovens, aproveitem seu tempo! Pensem em liberdade financeira!”. No texto há links para outros relatos sobre o assunto.

Condições prévias para montar sua carteira de investimentos

Antes de criar um plano de investimentos, precisamos nos atentar para 3 condições prévias. Sem elas, não podemos passar adiante. As perguntas que precisam ser respondidas são:

  1. Já possuo uma reserva de segurança adequada?
  2. Qual o meu perfil de investidor(a)?
  3. Quais corretoras de valores devo escolher?

Vamos fazer algumas considerações sobre esses pontos, passar posteriormente à estratégia inicial de investimentos e depois, às atualizações das carteiras até o final de 2019.

1) Qual deve ser o tamanho de minha reserva de segurança?

Antes de começar a investir em sua carteira de investimentos, é necessário garantir um saldo em dinheiro de curto prazo mínimo que possa ser sacado rapidamente em caso de emergências financeiras.

O termo “colchão de segurança” define exatamente esse montante que garantirá a você uma salvaguarda em situações financeiras complicadas. Afinal, imprevistos acontecem, e precisamos estar, ao menos parcialmente, protegidos contra eles, sejam relativos à saúde, acidentes ou mesmo a um desemprego inesperado.

Existe algum consenso sobre o total necessário para essa reserva financeira: algo entre 3 a 12 vezes sua média de gastos mensais. O valor menor diminui a margem de segurança, mas é recomendado aos mais jovens (afinal, eles conseguem colocações mais rápidas no mercado de trabalho e raramente são acometidos por problemas de saúde) e às pessoas com emprego estável.

Assim, se você encontra-se nesse estrato social e gasta, digamos, R$ 5mil reais por mês, você precisaria manter uma reserva financeira em aplicações seguras e líquidas, de R$ 15mil. Adotando o limite superior, uma pessoa pode manter uma reserva de até 12 vezes suas despesas mensais, maximizando sua segurança de curto prazo. A faixa etária superior da população, praticantes do trabalho informal e autônomos, podem sentir-se mais seguras com o valor maior.

Segurança financeira x rentabilidade

Não é difícil entender o porquê de não ampliarmos mais esse múltiplo: uma vez que as reservas devem ser investidas em aplicações seguras e líquidas (CDBs, Tesouro Selic, etc), seu rendimento é baixo. Se não o escolhermos bem, é bem provável que ele perca da inflação nesses tempos de juros baixos. Na última reunião do COPOM ele caiu a 4,5%!

Assim, quanto mais dinheiro dispusermos nesse “colchão de segurança”, menos dinheiro estará disponível para a carteira de investimentos. Isso é cada vez mais verdade quanto menor as taxas de juros da economia. Assim, quanto maior a segurança que você deseja nessa reserva financeira, menor é a parcela de dinheiro de sua carteira de investimentos que poderia ser alocada em aplicações mais rentáveis, como ações, fundos de investimentos ou renda fixa de longo prazo, como os títulos IPCA do Tesouro Direto.

Se você ainda não deu o passo inicial de garantir essa reserva financeira inicial, precisa começar a ajustar seu orçamento, equilibrando corretamente suas receitas e suas despesas. Veja o material que o blog oferece para ajuste do orçamento e fluxo de caixa, inclusive com uma planilha para download.

2) Qual o meu perfil de investidor? Interesses, conhecimento e tempo.

Antes da sugestão de uma estratégia de investimento, são necessárias informações do perfil do investidor, que inclui como variáveis o seu tempo disponível, interesse e conhecimento que ele disponibilizará para cuidar de sua galinha dos ovos de ouro. O objetivo é que ela forneça dividendos cada vez maiores que possibilitarão, quanto antes, alcançar sua independência financeira. Assim, não há uma receita certa para todos.

Na criação do planejamento financeiro pessoal de minha filha, havia explicado que ela tinha ao menos três alternativas para escolher em função do interesse que teria pelo mundo dos investimentos e pela disponibilidade de tempo de doação para o controle de seu portfólio:

  1. Ser uma analista própria: estudar muito, analisar empresas, mercados e definir ela mesma onde investir e como alocar seu dinheiro. Nesse caso, é patente que ela iria usar muito tempo em sua vida para controlar todos seus ativos e finanças pessoais. Essa alternativa geralmente é escolhida por quem não tem um emprego ou trabalho próprio, justamente em função do tempo dispendido.

  2. Ler análises de terceiros e ela mesmo gerir sua alocação: uma opção intermediária, onde ela assina uma consultoria financeira de investimentos através de casas de análises (Empiricus, Suno ou Eleven Financial), usando as recomendações para gerir seu patrimônio. Nessa alternativa, disse a ela que não poderia seguir cegamente o que os analistas recomendam.

    Ela teria de ter ainda um conhecimento bem razoável de alocação de ativos, diversificação e riscos envolvidos. Ou seja, ainda teria que usar um tempo para entender sobre gestão de carteiras de investimentos, embora terceirizasse a análise de empresas individuais.

  3. Aportar somente em fundos de investimentos: terceirizar totalmente a gestão de seu patrimônio para fundos de investimentos, reservando um tempo apenas para estudar e escolher bons fundos e gestores. Nesse caso, ela teria tempo totalmente livre para dedicar-se à sua profissão.

Não são opções fechadas, claro. Existem alguns tons de cinza entre uma e outra. Durante as escolhas da minha filha nos meses que sucederam a primeira conversa, percebi que ela escolheu algo intermediário ao caminho 2 e 3. Algo do tipo: “Invisto eu mesmo, mas não quero perder muito tempo com isso não”. Leia mais sobre a necessidade de descobrir seu perfil financeiro aqui.

Em seu menu de opções escolheu inicialmente fundos imobiliários e títulos de renda fixa de longo prazo, mas posteriormente escolheu os ETFs para as ações e, em seguida, fundos câmbio para segurança. Veremos isso na sequência com as sugestões de investimentos que fiz a ela. Tenham os leitores sempre em mente que perfis financeiros diferentes ensejariam estratégias diferentes.

Perceba ainda que não há escolhas melhores e piores entre esses perfis. Tudo depende do tempo disponível e de seu interesse pelo mercado financeiro. Para quem não tem tempo algum para algum aprendizado e análise, a opção 3 é a recomendada, por exemplo. Querer fazer day-trade na hora do almoço de seu emprego pode ser a pior escolha possível.

3) Já possuo uma conta em uma corretora da valores?

Para levar os investimentos a sério em sua vida, você precisa ser cliente de uma corretora de valores. Os maiores bancos possuem suas próprias corretoras, mas os custos que nos oferecem, em geral, ainda não são atrativos, mesmo com a atual competição com os bancos e corretoras digitais. A diferença entre eles já foi maior, mas ainda é grande.

Não menospreze essa variável: manter os custos baixos é fundamental no sucesso ao longo prazo de sua carteira de investimentos. Assim, como não há como comprar ativos como títulos do Tesouro Direto, fundos imobiliários e ações sem a intermediação de uma corretora de investimentos, você precisará abrir uma conta em alguma delas.

Se você não faz ideia por onde começar, sugiro ler um texto que conto minha história de andanças através de algumas corretoras. Comento quais estou usando atualmente para intermediar meus investimentos, com a visão do cliente. Acesse-o em “As corretoras de valores com menores taxas de corretagens“. Nesse artigo opino sobre cada uma delas e forneço uma tabela, sempre em atualização, dos custos de cada operação.

A estratégia utilizada para iniciar a carteira de investimentos

Incorporar uma rotina, em quaisquer áreas da vida, exige diligência e não pode ser adquirida às pressas. Querer abraçar rapidamente todas as técnicas e ferramentas necessárias para montar uma carteira de investimentos, assim como uma dieta alimentar radical, causa uma mudança muito drástica em nossa rotina e cria outros problemas na nossa vida, com boas possibilidades de fracasso.

O zelo e a dedicação, como ensinou a raposa ao pequeno príncipe, são essenciais para cativarmos e sermos cativados pelos nossos sonhos. Nesse sentido, propus a ela apenas uma divisão simples inicialmente.

A divisão inicial dos ativos da carteira de investimentos

A seguinte rotina deve ser a única operacionalizada nos primeiros seis meses:

  1. Reserva financeira de emergência: monitorar o “colchão de segurança” de forma que ele inclua 6 meses de gastos mensais. Notem a existência de duas variáveis: não é suficiente apenas definir um valor da reserva e vigiá-lo. É preciso também monitorar tendências de variação de seus gastos mensais. Se eles subirem, o valor destinado ao “colchão” também deve subir. Uma planilha de orçamento e fluxo de caixa, como oferecida parágrafos atrás, é essencial para esse controle.

  2. Sobra de caixa mensal: dividir sempre esse valor em dois. Metade dele, aporte em Tesouro Direto IPCA de longo prazo (2035 ou 2050). A outra metade deve ser usada para comprar dois fundos imobiliários (FIIs) de tijolos: HGRE11 e KNRI11.

Após o estabelecimento dessa rotina e aprendizado, poderemos iniciar a ampliação da carteira de investimentos para outros ativos, incluindo algumas ações e uma pequena alocação em câmbio.

Na sequência, explico como seria o operacional nos próximos 6 meses e o porquê dessas minhas sugestões.

Como operacionalizar o método de investimento sob a alocação de ativos

A meta nos primeiros 6 meses é manter a alocação de 50/50 para renda fixa (Tesouro Direto) e FIIs. Dentre o pilar de fundos imobiliários, manter a alocação parelha entre HGRE11 e KNRI11.

Assim, o controle desses ativos deve ser feito mensalmente através de uma planilha eletrônica simples e sem complicações. Criei uma versão menos complexa da que eu uso e disponibilizei também aos leitores. Acrescentei algumas explicações (“notas”) em várias células da planilha. Se houver dúvidas para sua utilização, elas podem ser colocadas nos comentários dessa postagem, que responderei com prazer.

Ao final do processo, você terá acesso à página de assinante do blog, com os links de todas as planilhas disponíveis e acesso ao drive virtual com as cartas dos gestores de investimentos aos acionistas atualizadas.

Primeiros passos na operacionalização

O tempo necessário de um investidor iniciante para gerenciar uma carteira simples de investimentos divide-se mensalmente em duas etapas:

  • a primeira na compra dos ativos, assim que o saldo disponível estiver na conta corrente (não deixe o dinheiro “parado” em sua conta corrente: invista-o rapidamente).
  • a segunda, no fechamento do mês, para apurar os percentuais de cada papel em seu portfólio, através da planinha de controle de ativos disponibilizada.

Em virtude do tamanho dos lotes de ativos, é claro que os percentuais nunca serão exatamente iguais. Se um lote de um FII custa R$129,00 e outro, R$148,00, o montante total, mesmo na aquisição inicial, terá uma pequena diferença em virtude do múltiplo inteiro de lotes. Bom senso é algo que ajuda muito nesse controle. Entretanto, conforme o tempo avança, poderemos ter desempenhos diferentes entre cada ativo, justificando novas alocações mais direcionadas.

Imagine que após 3 meses um dos fundos imobiliários valorizou-se e outro desvalorizou-se. Como resultado, o percentual do FII mais depreciado será menor e deve receber, proporcionalmente, alocações maiores de dinheiro novo, de forma que o valor de seu saldo total possa aproximar-se do outro e a paridade seja restabelecida. A tratativa da alocação entre os títulos públicos do tesouro direto e fundos imobiliários segue a mesma convenção.

A reserva de emergência dentro da alocação na carteira de investimentos

Antes de justificar a escolha dos ativos para minha filha, adianto um comentário relevante que pode dirimir algumas dúvidas: a reserva de segurança não poderia estar contida na carteira de investimentos na estratégia de alocação de ativos?

A resposta é sim, poderia. Mas não deveria. Prefiro não considerar a reserva financeira como parte de sua carteira de investimentos. Seu tratamento segue diretrizes diferentes, investimentos com finalidade específica (renda fixa com liquidez imediata) e, se ele representar um percentual significativo do portfólio, irá prejudicar o cálculo dos percentuais de alocações.

Nesse exemplo inicial de alocação, a quase totalidade de seus investimentos estão nessa reserva de emergência e ao menos nos primeiros anos, eles deterão montantes consideráveis no total do portfólio.

Esse valor do colchão de segurança não deve ser pensado em termos percentuais, e sim absolutos. Como comentei, ele deve ser calculado por um múltiplo de seus gastos mensais. Logo, não sofre a dinâmica dos rebalanceamentos de carteira e  sua operacionalização possui uma estratégia totalmente diferente.

As razões das escolhas dos ativos na carteira de investimentos

Sobre as alternativas de investimentos sugeridas, a ideia principal é estimular e perpetuar o hábito do investimento mensal. A simplicidade das operações visa esse objetivo, de forma a encorajar e consolidar uma rotina. Ativos mais complexos, como debêntures para renda fixa, por exemplo, estariam de fora.

Evitei no momento títulos de curto prazo como CDBs e LCIs, pois contratar taxas de juros razoáveis por longos períodos é um melhor aprendizado à marcação à mercado, que demonstra que a renda fixa não é bem “fixa”. Em outras palavras, a renda fixa de longo prazo na verdade é uma renda variável no caminho até seu vencimento, embora sem surpresas no final do período.

A escolha do título público de longo prazo foi estabelecida, além da premissa do aprendizado da marcação à mercado, pelo considerável aumento das taxas que ocorreram na semana anterior à montagem da carteira de investimentos (junho/18).

Para a renda variável, preferi não sugerir ações nesse momento: a alta volatilidade poderia assustar novatos. Os fundos imobiliários são perfeitos para o início em mercados mais instáveis, pois possuem uma resiliência um pouco maior do que as ações. Dentre eles, escolhi fundos de tijolos, uma vez que os fundos de recebíveis são muito similares às aplicações de renda fixa, que já estariam consideradas na alocação da carteira de investimentos. Os FIIs de tijolos possuem ainda, uma tangibilidade que ajuda no processo de se entender em que estamos investindo.

Diferentemente do pensamento de algumas pessoas que acreditam em um eventual aumento da SELIC e queda nos valores dos FIIs (novamente, estamos aqui em junho/18), vejo uma relação muito maior entre eles e o DI futuro (na verdade, um indicador antecedente de mudanças na SELIC). Na semana anterior à montagem do plano de investimentos, uma boa precificação ocorreu com consequentes quedas nas cotas dos FIIs, diminuindo os riscos no momento da compra.

Devemos sempre ser flexíveis para mudar premissas, se necessário. Em um movimento de queda de juros, por exemplo, podemos pensar em substituir parte da carteira de renda fixa de títulos públicos por fundos imobiliários de recebíveis, adicionando um pouco mais de rentabilidade e risco na carteira.

Dentre os FIIs de tijolos, escolhi fundos de dois gestores tradicionais do mercado: o Kinea, do Itaú, e o CSHG (Credit Suisse Hedging-Griffo). O primeiro tem sua maior parte das receitas em galpões logísticos, que são um dos setores que considero mais perenes do mercado de tijolos. Mesmo com o avanço do home-office, robotização e comércio eletrônico, ainda precisaremos de fábricas e locais de armazenagem. Eles foram um dos setores “poupados” em uma análise crítica que fiz das “disrupturas que podem influenciar excelentes ações e FIIs“.

Já o HGRE11 baseia-se em rendas de edifícios de escritório. Ambos já possuem um bom tempo de mercado, uma boa pulverização de ativos e a competência dos gestores já foram testadas em diversas situações, embora eu esteja ciente que atualmente, existem outros segmentos mais procurados pelos investidores, como o setor de shopping-centers. Mas, ao menos nesse período de 6 meses, achei ambos ideais para uma fase de aprendizado, enfatizando que não estou pensando em altas probabilidades de ganhos, mas sim em menores riscos.

Por fim, ambos, principalmente o HGRE11, possuem uma política de evitar mudanças bruscas em seus rendimentos mensais, usando inclusive reservas anteriores para cobrir eventuais faltas de receitas momentâneas. Esse procedimento, apesar de não ser bem-visto por alguns agentes de mercado, pode ser útil para construir um sentimento de segurança às pessoas que estão iniciando no mundo dos investimentos. O histórico deles, de qualquer forma, mostra que sua gestão ativa tem garantido a sustentabilidade dos fundos. 

A evolução do plano financeiro de minha filha – 2019

O software de gestão financeira – uma planilha eletrônica

Inicialmente, ela não se adaptou bem à gestão financeira pessoal de fluxo de caixa e receitas e despesas dos aplicativos modernos de gestão financeira. Ela ficou um bom tempo penando sem domínio pleno em seu controle de gastos mensais, embora possuísse o bom senso de investir mensalmente em sua carteira pessoal.

Porém, surpreendentemente, ela possui um bom domínio de seu patrimônio, contabilizando suas compras, dividendos recebidos e seu montante mês a mês. Acredito que isso é imprescindível para percebermos o crescimento do patrimônio e enxergar a independência financeira lá na frente.

No final de 2019, enfim, ela percebeu que um controle de receitas de despesas é essencial para dominar suas finanças e determinou-se a levá-lo a sério. Vamos ver agora em 2020 se o negócio anda. Ela está usando a mesma planilha eletrônica que compartilhei alguns parágrafos atrás.

A evolução do plano de investimento

Mudanças na alocação da carteira de ativos

Em junho/19, quando a carteira fez um ano, acreditei que o objetivo inicial da alocação dos investimentos de minha filha estava (ao menos parcialmente) concluído e, com o aumento de seu patrimônio, seria melhor começar a diversificar mais.

A queda dos juros longos e a expectativa de melhores dias para o mercado acionário brasileiro também provocava uma alteração nos percentuais da carteira.

Considerando que ela ainda é jovem, não teria sentido ficar fora de um possível boom do mercado acionário e, em uma várias reuniões entre a gente, onde voltamos a conversar sobre o tempo que ela disponibilizaria para o controle de seus investimentos, decidimos alterar a alocação para 1/3 de renda fixa de longo prazo, 1/3 fundos imobiliários e 1/3 em ações brasileiras.

Dessa forma, ela ficaria exposta a uma possível apreciação dos ativos brasileiros, sem se expor demasiadamente ao risco.

No final de dezembro de 2019, decidimos incluir um pilar de seguros em sua carteira de investimentos: a alocação em fundos de dólar e ouro no BTG Pactual. Lá a taxa de administração desses fundos de investimentos é de apenas 0,10% ao ano, com uma alocação de 5% cada um. A estratégia de possuir seguros em sua carteira está bem explicada no texto sobre alocação de ativos.

Ao final de 2019, portanto, ela estava alocada com a seguinte composição:

Renda Fixa LPAçõesFundos ImobiliáriosOuro/Dólar
28,49%30,16%31,73%9,63%

Alteração em cada pilar de investimentos

  1. Renda fixa de longo prazo: com a queda abrupta dos juros, resolvemos alterar um pouco o que chamamos de “longo prazo” para entender melhor se a estabilidade do país será algo duradouro ou não. Seus novos aportes estão sendo direcionados para renda fixa de médio prazo, em LCIs ou CDBs de bancos menores com vencimento de 3 a 5 anos, proporcionando um ganho relativo maior e um resgate mais curto.

  2. Fundos imobiliários: ela manteve por um tempo as posições em HGRE11 e KNRI11 e comprou no primeiro semestre cotas de um fundo de shopping center: o XPML11. Cada um deles preenche 1/3 da alocação de FIIs.

  3. Ações: como preferiu não se aprofundar nas análises das empresas, nem assinar consultorias especializadas, está dividindo esse terço do patrimônio entre dois ETFs: BOVV11 e SMAL11. Cada um dos papéis representa 50% da alocação de ações.

  4. Seguros: no final de 2019, foram acrescentados dois fundos no portfólio, de dólar e ouro, com a meta de composição individual de 5% do portfólio total.

Rentabilidades no último ano

Minha filha não reclamou dos resultados que seus ativos proporcionaram nesse período. Os dois fundos imobiliários proporcionaram excelentes ganhos. O HGRE11 disponibilizou um rendimento (até o momento) de mais de 80% (incluindo os dividendos) e o KNRI, de mais de 40%. O XPML11, desde sua entrada na carteira, rentabilizou pouco mais de 30%.

A queda dos juros longos propiciaram rendimentos de mais de 35% em seus títulos de longo prazo. Porém, a situação atual pede uma mudança de posicionamento, seja para explorar melhores rentabilidades, seja para usar melhor a diversificação e diminuir os riscos do portfólio.

O pilar de ações, construído em março de 2019, fecharam o ano com uma rentabilidade excelente de 49% para SMAL11 e de quase 20% para o BOVV11. Apesar da alta valorização em um curto período, minha filha não pensou em vender os papeis nem comprar além do percentual definido, evitando ações baseadas na emoção. O método de alocação de ativos pressupõe isso: usar mais o racional e menos o emocional.

Comentários sobre as mudanças na carteira de investimentos e futuro

Renda variável – ações

Vamos iniciar pela adição da renda variável utilizando ETFs. Provavelmente, pode ter sido uma fonte de decepção para as pessoas que gostam e acreditam que podem ser melhores que o mercado financeiro escolhendo ações de empresas específicas.

Não tiro a razão delas: sim, é plenamente possível e a minha própria evolução patrimonial deixa claro que a seleção de ações, quando bem feita, pode trazer resultados melhores a longo prazo. Porém, minha filha prefere gastar seu tempo com seu trabalho, que para ela também é uma fonte de prazer. Devemos aceitar que as pessoas são diferentes, e não julgar com base nos nossos princípios e propósitos.

Particularmente, considerei que foi uma boa estratégia considerando suas aspirações e interesses. Aceitando colocar 1/3 de seu patrimônio em ações, ela está bem preparada para surfar a onda de otimismo que, esperamos, deve chegar ao país nos próximos anos. Está avisada, porém, que teremos muitos altos e baixos até lá…

Talvez algum leitor me questione, inconformado do porquê eu não definir para ela quais ações individuais comprar. Nunca tive o hábito de sugerir empresas para compra ou venda a ninguém basicamente por 3 motivos:

  1. Gera dependência: quando uma pessoa depende de outra para definir suas compras no mercado financeiro ela se torna alguém incapaz de aprender. Além de viver uma vida de parasita para os próximos movimentos;

  2. Pensamento de longo prazo: minha filha precisa ter uma estratégia que funcione em todos os cenários, inclusive caso eu morra amanhã. Se a gente dá sempre o peixe, como ela irá pescar no futuro?

  3. Eu posso estar errado: minhas escolhas de compras e vendas no mercado financeiro devem implicar consequências somente a mim, não a mais ninguém. Assumir a responsabilidade por escolhas erradas dói muito, mesmo para nós, imagine assumi-las para pessoas próximas que amamos!

Apesar disso, por vezes conversamos sobre o mercado e costumo passar a ela muitas diretrizes sobre setores, novos ativos que ela pode pensar em adquirir, etc. E conforme seu patrimônio aumenta, ela pode sim decidir investir em ações específicas, inclusive em ativos no exterior através da escolha de bons fundos de investimentos.

Renda variável – fundos imobiliários

Quando analisamos a decisão de minha filha em possuir 2/3 de seu portfólio em renda variável, percebemos que ela, apesar de não se envolver no mercado financeiro, tem um perfil financeiro arrojado. Ao menos até o próximo grande mercado de baixa…

Ela decidiu comprar um novo fundo de shopping center, o XPML11, em virtude de algumas conversas que tivemos sobre o setor no Brasil. Apesar de haver algumas rupturas que poderiam apontar um declínio dos shoppings-center no Brasil como o comércio eletrônico, acredito que a aposta no lazer vai continuar gerando boas receitas para esses fundos. Sem contar que ele ainda é sub-penetrado, principalmente nas cidades menores.

Para o futuro, acredito que ela deve pensar em fundos de recebíveis, uma vez que a renda fixa está cada vez menos interessante no país.

Renda fixa – curto ou longo prazo?

Acredito que a atratividade da renda fixa é o grande debate atual. Alguns analistas tomam partido dela, dizendo que entramos em um longo período de juros baixos e travar taxas reais brutas em torno de 3,5% é algo positivo.

Por outro lado, muitos também afirmam que a atratividade da renda variável nos próximos anos superará muito o potencial risco e depositar as fichas na renda fixa é bobagem.

É um bom debate. Ela manteve sua renda fixa de longo prazo intacta em títulos do Tesouro Direto, mas esse ano, parou de investir por lá. Está mantendo novos aportes em títulos privados de curto e médio prazo para analisarmos juntos como fica o horizonte da queda das taxas de juros. Nos próximos 5 anos, ela terá esses vencimentos disponíveis para decidir o que fazer.

Seguros: câmbio e ouro

Já expliquei no artigo sobre alocação de ativos a importância de termos seguros na carteira de investimentos. Em resumo, o propósito desse pilar não é buscar rentabilidade e sim possuir ativos que se valorizam em crises mais sérias. Em uma baixa forte no mercado de ações, a tendência é o ouro e dólar se valorizarem muito, disponibilizando capital para comprarmos mais ações a preços baixos.

Por que ambos, e não apenas dólar, por exemplo? O ouro possui uma função adicional como reserva de valor mundial. Se houver uma crise monetária séria no mundo (talvez em função do problema das reservas fracionárias), o dólar também será envolvido. O ouro e imóveis serão o porto seguro dos investidores.

Pensamento final: aporte é mais importante do que rentabilidade para desenvolver sua carteira de investimentos

Finalmente, enfatizo que nessa fase da vida de minha filha, o aporte é mais importante do que a escolha do investimento perfeito. Criar esse hábito é o que garantirá a prosperidade e a perenidade de sua carteira de investimentos. Veja algumas simulações que fiz entre o aporte e a rentabilidade no texto “O que é mais importante: poupar mais ou investir melhor?

É claro que isso não significa comprar qualquer coisa. No artigo “Rebalanceamento da carteira de investimentos“, enfatizei que a escolha correta é essencial para o sucesso de um portfólio. Porém, a ideia aqui exposta consiste em esclarecer que é necessário priorizar o que é mais importante para uma pessoa que está na fase inicial de sua vida financeira, e, principalmente, alguém que possui um trabalho que não possui relação com o mundo das finanças e não tem pretensões de ser uma investidora em seu tempo dominante.

Existe um ensinamento gravado em uma frase já piegas e batida, mas que levo muito a sério na minha vida: ensinar a pescar é muito mais importante do que dar o peixe. Não sei até quando estarei nesse mundo para auxiliá-la, e minha pretensão é que ela saiba, quanto antes, a gerir seus próprios investimentos. Apesar de que, apenas pensando na idade, tenho a expectativa de presenciar o final da viagem lenta à independência financeira de minha filha. Quem sabe eu ainda possa dar outra volta pelo mundo, mas agora, todos em família?

Aprender a investir envolve foco. Não adianta abraçarmos além do que podemos ou queremos fazer. Temos que ser conscientes de nossas limitações de tempo, vontade e conhecimento (que muitas vezes é falho justamente pela falta de… tempo). Uma adaptação consciente de nossas condições é a maneira mais segura e perene de atingirmos nossa maior realização pessoal, que dificilmente vem apartada da liberdade financeira.

E vocês, leitores, como estão realizando os novos aportes? De forma mais conservadora ou agressiva?

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AndréLER E POUPARSimplicidade e Harmonia Recent comment authors
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LER E POUPAR
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Mais importante do que a alocação é o ensinamento que passa para sua filha.
Isso não tem preço.
Os meus são pequenos.
Espero ter essa mesma sabedoria para ensinar a pescar e investir o peixe.

Abraços,

André
Admin
André

Olá Ler e Poupar!

Se você absorve bem os conhecimentos adquiridos nos livros incríveis que recomenda em seu blog, não tenho dúvidas que ela está contigo!

Obrigado pelas palavras!

Abraço!

Simplicidade e Harmonia
Visitante

André,

Gostei da alocação da carteira da sua filha. Como ela é mais nova, 1/3 em ações e 1/3 em fundos imobiliários é uma boa opção. Além disso, com o tempo ela vai adquirindo mais experiência e penso que começará a comprar ações.
Parabéns por incentivá-la no caminho da IF e não do consumo!

Abraços,

André
Admin
André

Oi Rosana!

Humm, será? Não sei… Tenho falado corriqueiramente para ela que, se ela decidir comprar papéis individuais, vai ter que estudar mais e acompanhar. Não sei se ela vai ter saco para isso rsrs

Obrigado! Espero que esses hábitos se consolidem rapidamente nela!

Abraços!

André
Admin
André

Pessoal, segue o link de parte dos comentários no Disqus, que não migraram para o WordPress mas continuam em sua plataforma. Muitos, nem por lá estão mais…

https://disqus.com/home/discussion/viagem-lenta/o_nascimento_de_uma_carteira_de_investimentos_e_uma_planilha_para_download/

Se desejarem ler mais sobre o assunto, ou comentar com sua conta Disqus, ou ainda, se tiverem conhecimento desse bug de migração e quiser ajudar, é só enviar um email para mim.

Obrigado!