Resenha: “Your Money Your Life” – 9 passos até a independência financeira

“Your Money, Your Life”, ou “Dinheiro e Vida” foi um pioneiro da literatura no tema de independência financeira.

Sendo o assunto principal do blog, nada mais justo do que dedicar um texto a uma resenha sobre seus ensinamentos, não?

Veja como o conceito de “energia vital” ajuda você a perceber como seu tempo pode ser determinante para mudar algumas atitudes, ampliando sua liberdade.



Em 1992 eu era apenas um estudante de engenharia do 3º ano e recebia meu primeiro salário como bolsista de iniciação científica. Nossa moeda devia ter algum nome parecido com cruzeiro, cruzado, cruzado/cruzeiro novo, ou algo assim. A loucura econômica do país me outorgava o direito da ignorância econômica. Ninguém falava de finanças pessoais.

 
Veja a resenha do livro "Your Money, Your Life", traduzido como "Dinheiro e Vida"? É um pioneiro nas finanças pessoais e em 1992, já sugeria 9 passos à independência financeira.
 

Quanto poupar? Onde investir? Quem estava preocupado com isso? Acabei gastando todo o dinheiro da iniciação científica comprando uma CBX Aero 150. Usada, claro! Mas linda, azul e branca, e com partida elétrica. Um luxo para a época.

“Pai Rico e Pai Pobre”, um clássico que virou depois uma máquina de marketing, iria aparecer somente 5 anos na frente. “O Milionário Mora ao Lado” chegaria um ano antes, em 1996. É verdade que “O homem mais rico da Babilônia já existia”, mas não ficava nas prateleiras de destaque nas livrarias. Possivelmente só era possível encontrá-lo nos sebos. Em inglês.

Na época, já havia bons livros sobre investimentos como “O Investidor Inteligente”, mas eles eram destinados somente às pessoas que já possuíam cacife de investidores. Não existia internet ou livros sobre independência financeira para leigos.

Será mesmo?

 

“Your Money Your Life”, um pioneiro!

 

Na verdade, não! Um clássico, “Your Money, Your Life”, foi lançado em 1992, traduzido para o português* na década passada como “Dinheiro e Vida”. Seus autores, Joseph R. Dominguez e Vicky Robin escreveram, ainda no século passado, um livro que procura promover um equilíbrio entre o presente e futuro, frugalidade e perdulariedade, assuntos bem debatidos no blog.

Segundo os autores, perseguir a independência financeira é necessário para a promoção de uma vida de abundância. A autoridade para mostrar um caminho viável para tal meta vem do fato de um dos autores, Dominguez, ter alcançado a independência financeira aos 31 anos, mesmo tendo um salário de analista financeiro e alguns rendimentos como escritor.

Seu ensinamento baseia-se na convicção de que devemos modificar nosso mindset, usando uma palavra do jargão atual. Mudar nosso modelo mental em relação ao dinheiro, como o vemos e como gerenciamos suas entradas e saídas de nossa vida, é essencial para fazermos o necessário para sermos financeiramente livres, sem sofrimento.

Em certo sentido, ele adiciona filosofia em cada etapa necessária para alcançar a independência financeira. Coloca o tempo como o bem fundamental para decidir sobre o destino a dar ao seu dinheiro: o tempo que vale a pena ser gasto no presente e o tempo que você terá a mais no futuro quando libertar-se da obrigação de trocá-lo pelo trabalho.

Os autores fornecem 9 passos para alcançar seus objetivos de liberdade financeira, que veremos na sequência em conjunto com meus comentários.

 

Os 9 passos para a independência financeira

 

1) A armadilha do dinheiro

 

Robin e Dominguez nos apresentam algo semelhante a conhecida corrida de ratos, que ficou famosa no livro “Pai Rico, Pai Pobre”. Nesse passo, os autores sugerem que calculemos o quanto recebemos de dinheiro em nossa vida e qual é o nosso patrimônio atual. Pode parecer deprimente ver que não fomos minimamente eficientes nesse aspecto.

Nesse exercício, podemos avaliar a quantidade de dinheiro que entra na nossa vida, mas não é usado na criação de uma reserva financeira que pode nos auxiliar no futuro. O quanto vale todo esse trabalho se não vemos resultado nas horas que gastamos com ele?

Esse processo viciado ocorre frequentemente em uma sociedade que ensina que consumo e dívida é necessário para você ser alguém respeitado. É o trabalho de marketing pesado sobre fazer que sintamos vergonha por não ter isso ou aquilo, e corrermos o risco de sermos párias em nosso grupo social. Somos tomados pela vergonha que aquieta o prazer do momento, mas não é duradoura.

Uma das lições do livro é provar que soluções externas para o desequilíbrio da mente, da alma ou do coração não funciona a longo prazo. Necessidades espirituais e psicológicas nunca serão plenamente satisfeitas com o consumo ao nível físico.

 

2) Dinheiro não é o que pensamos. E nunca será

 

Posteriormente, os autores nos introduzem ao conceito de energia vital, que será constantemente abordado no decorrer do livro. Através do cálculo de quanto você recebe por hora, você chega no valor do tempo que dispende com ele. Ou seja, sua energia vital está sendo gasta para receber esse salário.

Da mesma forma, é importante saber para onde vai esse dinheiro que você recebe. Quando você compra algo, você paga com sua energia vital, que está disfarçada de “dinheiro”. Rastrear seus gastos constantemente é uma etapa essencial para entender a dinâmica financeira de sua vida. Cada dinheiro que você gasta são horas de energia vital perdidas e isso cobrará um preço no futuro.

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Por exemplo, se você compra um tênis de R$ 300,00 e recebe R$ 15,00 por hora de salário (equivalente a um salário de cerca de R$ 3000,00 mensais), você está gastando 20 horas de sua energia vital nesse tênis.

Isso faz sentido para você? É uma despesa alinhada ao seu objetivo de vida? São consumos que podem ser modificados? Energia vital é algo limitado que não pode mais ser recuperado, uma vez utilizada. Os autores nos instigam a pensarmos a importância dos gastos do dia a dia de uma forma simples: quantas horas de seu trabalho, de sua vida, valem sua compra?

 

3) Para onde vão suas despesas?

 

Com a consciência do significado dos gastos no dia a dia, chega o momento de fazer um controle de receitas e despesas para acompanhamento periódico, dividido em categorias. A intenção é encontrar os verdadeiros propósitos pelos quais você está gastando seu dinheiro no dia a dia.

Com a informação do percentual de gasto em cada despesa e de seu salário, é possível converter cada categoria para o número de horas gastas de sua energia vital, fornecendo um sistema contundente para acompanhar suas finanças. Por exemplo, você saberá o quanto a categoria “almoços fora de casa” consome de sua energia vital, ou seja, quantas horas de trabalho essa despesa representa em sua vida.

Aqui no blog, disponibilizo uma planilha de orçamento e fluxo de caixa que possui a maioria das informações que são necessárias para esse acompanhamento. Em uma coluna é fácil acrescentar o conceito de “energia vital” dos autores.

 

4) Três perguntas que transformarão sua vida

 

Com o controle financeiro estabelecido, os autores nos instigam com três perguntas:

  • Recebi realização, satisfação e valor proporcionalmente à energia vital despendida?
  • O gasto de energia vital está alinhado com meus valores e propósito de vida?
  • Como essas despesas podem mudar se eu não precisasse mais trabalhar para viver?

O propósito aqui é aprofundar a consciência com relação aos nossos gastos.

Possivelmente, após alguns meses acompanhando os gastos mensais, os leitores descobrirão seus padrões inconscientes em torno do dinheiro. Seus gastos são em coisas que levam à real satisfação? Ou são apenas desperdícios que não estão alinhados com seus valores?

O intuito é que as pessoas sintam-se prontas e encorajadas para minimizar gastos irracionais, tendo assim, dinheiro sobrando para realizar seus investimentos. Os juros e dividendos desses investimentos se somarão aos rendimentos, o que fará que, aos poucos, o círculo torne-se virtuoso: mais rendimentos, mais sobras, mais investimentos, mais rendimentos!

 

5) Mantenha disponível e visível todo o controle de receitas e despesas

 

Seja em um quadro físico ou em uma planilha eletrônica, a intenção dos autores é que você acompanhe a evolução de seu controle financeiro, mantendo a visibilidade de sua energia vital.

Pode parecer tolo enfatizar essa etapa, mas no dia a dia percebemos que as pessoas não realizam um acompanhamento adequado de suas finanças, embora isso seja essencial. Já ouviu o ditado que “é o olho do dono que engorda o gado”? É um exercício altamente valioso!

Eu acompanho a evolução de meu controle financeiro desde 1997, quando a internet mal funcionava no país. Inicialmente feito de forma mais simplificada, hoje ele está mais rico e elaborado com dados e gráficos em planilhas eletrônicas, mas o controle essencial de despesas ainda é acompanhado pelo antigo software de finanças Microsoft Money, sobre o qual já comentei no blog.

 

6) Valorize sua energia vital minimizando despesas

 

Eu acrescentaria que o foco aqui não é somente minimizar despesas, mas sim que a sua redução seja consequência de uma vida mais minimalista. É fácil ter prazer na frugalidade e nas coisas simples da vida, sem sermos escravos de alguma obrigação, sem inveja do que os outros possuem.

Já naquela época eles discutiam o custo ao planeta para cada coisa que compramos e jogamos no lixo. Não legitimo a briga dos eco-chatos que veem o problema ambiental como algo ao nível global. Há muito o que debater sobre o assunto. Porém, os danos ao meio-ambiente são claros aos nossos olhos, como a sujeira nas ruas (o que intensifica as enchentes), o excesso de lixões ou a imundície de algumas praias que visitamos. Isso pode ser minimizado tanto com a redução do consumo desnecessário quanto ao aumento da educação das pessoas.

O livro apresenta muitas dicas de como gastar seu dinheiro com lógica, comprando o que realmente é necessário e faz você feliz, e não apenas para satisfazer seu ego perante à imagem que você precisa ostentar aos outros. Sua energia vital agradece com um tempo maior para ser gasto com algo realmente significante!

 

7) Valorizando sua energia vital maximizando a renda

 

Os autores sugerem a adoção de uma atitude positiva perante o trabalho, percebendo como seus ganhos levarão até a independência financeira. Evite atitudes negativas, como vítimas do sistema, da economia ou dos capitalistas malvados, como uma turminha de esquerda que gosta de se vitimizar.

Reconsidere sua relação com o trabalho. Quais são meus objetivos? Salário, mas também sucesso, socialização, poder, prestígio, crescimento pessoal, aprendizado, segurança, etc? Você precisa realmente trabalhar em tempo integral ou pode escolher uma semi-aposentadoria agora, nesse exato momento?

Procure outras formas de renda, principalmente se gostar de fazer algo alternativo: isso pode ser uma forma de tornar sua aposentadoria mais prazerosa. Possivelmente dessa forma, você pode criar um trabalho que seja mais associado à sua própria identidade do que aquele que faz atualmente.

Valorize a energia vital que investe em seu trabalho e a troque por algo mais significativo, consistente com seu objetivo de vida, se necessário.

 

8) O ponto de cruzamento: receitas maiores do que despesas

 

As sete primeiras etapas foram escritas de forma a dar aos leitores um conhecimento sólido de como maximizar suas receitas e controlas suas despesas. Naturalmente, agindo racionalmente nesse sentido, alcançaremos a pedra angular para a liberdade financeira, seu ponto de cruzamento ou ponto de equilíbrio: o momento onde suas receitas superam suas despesas.

Nesse momento, a renda necessária para viver bem provém de seus ativos e você não precisará mais trocar seu tempo por dinheiro através de um trabalho indesejado. Você estará livre para escolher seus próximos passos. Parabéns! Você agora é financeiramente independente!

Alerta-se que o livro foi escrito em um contexto de taxas de juros baixas para os padrões americanos (mas maiores do que as atuais). Talvez por isso, os autores se concentrem mais em minimizar suas despesas, uma vez que, com um sarrafo menor de meta de gastos, será mais fácil alcançar o ponto de equilíbrio: você precisa de um patrimônio menor para suprir suas necessidades.

É sugerido o uso de uma fórmula para avaliar o ponto de equilíbrio, que não é muito diferente da regra dos 4% que algumas pessoas preferem utilizar – a famosa TSR (taxa segura de retirada). Eu já comentei que não gosto dessa fórmula, uma vez que nossas despesas são variáveis ano a ano, assim como a taxa de juros que iremos receber no futuro.

Prefiro fazer um acompanhamento anual, que explicitei no texto “A TSR, a planilha de plano patrimonial e meu histórico na TNRP“, que é o conceito que hoje utilizo. No texto, há um link para download da planilha que uso para calcular esse indicador.

 

9) Gerenciando suas finanças: investindo para sua independência financeira

 

Aqui os autores auxiliam como criar uma rotina para o investimento a longo prazo. Como o livro já tem uma certa idade e trata da realidade americana, possivelmente esse capítulo não será tão útil ao investidor brasileiro. Os ativos sugeridos possuem hoje taxas de retornos diferentes do momento em que o livro foi publicado. A atratividade do mercado de renda variável, idem. Assim, é uma parte do texto que deve ser avaliada muito criticamente.

Os autores basearam-se em títulos do governo que pagavam muito mais do que pagam hoje (em queda similar ao Brasil), fazendo que alcançar uma situação de ser financeiramente independente hoje não pode ser igual ao que se pensava quase 30 anos atrás. Hoje talvez eles se agarrassem mais aos fundos imobiliários – ou REITs americanos, que forneceriam taxas de retorno similares ao que os títulos públicos pagavam no passado.

O conhecimento geral que tiramos desse capítulo é: “torne-se conhecedor e invista seu capital de maneira a fornecer uma renda absolutamente segura, suficiente para atender às suas necessidades básicas da vida“.

 

Impressões gerais de “Your Money, Your Life” – ou “Dinheiro e Vida”

 

Joseph R. Dominguez e Vicky Robin não foram os primeiros que sugeriram uma vida mais frugal na qual cada um teria mais tempo e liberdade de escolha. Mesmo os hippies do começo da década de 70 fizeram isso, mesmo que de uma forma meio atabalhoada. Mas seu lançamento, pouco tempo antes do fenômeno da Internet, parece que pôde antever a invasão do marketing on-line personalizado e a consequente explosão do consumo desnecessário.

Eles receitaram previamente o remédio para que não entrássemos nessa corrida de ratos: trabalhar para consumir durante toda a vida e depois sermos consumidos com a dependência da previdência estatal. O conceito de energia vital pode ser considerado um gatilho fundamental para que repensemos o quanto vale as horas de nossa vida e adequemos nosso consumo para aproveitá-las melhor.

O livro é mais um guia sobre orientação em seu relacionamento com o dinheiro e valores pessoais do que uma obra de finanças pessoais propriamente dito, embora as receitas estejam presentes no livro. E, como quase todo livro, poderia ser muito bem resumido em 1/3 de suas páginas, em função da repetição dos conceitos. Talvez a prolixidade seja um dos problemas mais graves dos escritores. Mesmo eu, aqui nesse blog, procuro tomar cuidado com ela.

As pessoas que ouviram seus conselhos ainda no século passado, devem ser muito gratas aos autores. Assim como eu fui grato ao Pai Rico, Pai Pobre, antes de seu autor enveredar-se por caminhos pouco louváveis. Possivelmente, muitos desses leitores fazem parte hoje da nossa finansfera, ajudando outras pessoas a evitarem caminhos errados e a serem mais conscientes com o equilíbrio entre o presente e o futuro.

Infelizmente, o mundo continua em seu processo exponencial de consumo desnecessário. Vemos isso no dia a dia, seja nas ruas repletos de SUVs, nos corpos doentes e rostos infelizes das ruas. Viver de forma ineficiente parece que se tornou padrão na humanidade. Podemos ter um contato mais próximo com nossa “tribo” aqui na internet, mas sejamos sinceros: quantas pessoas na vida real conhecemos que pensam como a gente?

Precisamos nos conscientizar que somos minoritários, mas vivemos muito bem e não seremos dependentes de uma previdência estatal. Longe de vangloriar-se com isso, desejamos que as pessoas próximas possam aproveitar-se dessas ideias, para que elas usufruem da liberdade e do protagonismo que possuímos. É para isso que escrevemos. Para disseminar um estilo de vida onde percebemos valor. Que nos traz paz, equilíbrio e prazer.

E vocês, leitores, já leram o livro? Se negativo, qual o seu livro de finanças pessoais favorito?

* Comprei o livro em inglês, quando fazia um curso em Nova Iorque em 1996. Desconhecia sua versão em português. Na revisão do texto, percebi que nosso amigo Guilherme, do blog Valores Reais, já escreveu sobre ele em 2010! Agora temos duas resenhas do livro na finansfera! 🙂


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One thought to “Resenha: “Your Money Your Life” – 9 passos até a independência financeira”

  1. Pessoal, segue o link de parte dos comentários no Disqus, que não migraram para o WordPress mas continuam em sua plataforma. Muitos, nem por lá estão mais…

    https://disqus.com/home/discussion/viagem-lenta/resenha_your_money_your_life_9_passos_ate_a_independencia_financeira/

    Se desejarem ler mais sobre o assunto, ou comentar com sua conta Disqus, ou ainda, se tiverem conhecimento desse bug de migração e quiser ajudar, é só enviar um email para mim.

    Obrigado!

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