Quando a vergonha ofusca o prazer e lesa sua independência financeira


Em sua jornada rumo à liberdade e à independência financeira, é essencial compreender como a vergonha confunde a percepção e o significado dos reais prazeres da vida.
E como a felicidade não depende apenas das condições objetivas.


O ditado popular diz que você apenas pode tornar-se independente financeiramente de três maneiras: herdando uma fortuna, casando com alguém que possua uma fortuna ou recebendo uma fortuna apostando nos números corretos da loteria.

Entretanto, se você possui algum conhecimento financeiro, sabe que tal ditado é uma falácia. Sim, esses são de fato alguns caminhos para tornar-se rico e independente. Porém, uma vez que são fáceis acessos, praticamente atalhos, não criam raízes ou reforçam o modelo mental correto, necessário para a jornada à liberdade financeira. E conquistas sem raízes são bem mais susceptíveis a desastres no futuro.

A vergonha, a propaganda e o marketing prejudicando a conquista da independência financeira e o alcance do prazer.

As pessoas que possuem consciência da importância do hábito, da perseverança, do aprendizado e do protagonismo pessoal no processo de construção de riqueza, sabe que o caminho mais sólido é conduzir um saudável equilíbrio de despesas e investimentos em seu orçamento.

Se você ainda não se convenceu da importância que uma gestão financeira pode fazer na sua vida, leia o artigo “Uma planilha de controle de gastos para seu orçamento e fluxo de caixa“. É uma importante ajuda para fixar certos conceitos. E essencial para sua independência financeira. No entanto, esse controle gera muitas dúvidas a aflições. Qual o equilíbrio entre o presente e o futuro?

Pululam na internet artigos dizendo quais percentuais você deveria preservar de suas receitas para aportar em seu patrimônio. Esse equilíbrio é a grande incógnita a ser desvendada. A maioria foca mais no presente e não se importa muito com o futuro. Outros optam pela frugalidade extrema, em troca da satisfação momentânea.

Esse artigo propõe considerar alguns fundamentos que nos impulsionam às compras, seja aquelas constantes do dia a dia, como as impulsionadas por momentos como a semana de BlackFriday. E provoca algumas reflexões sobre qual o tipo de prazer é realmente importante em nossa vida.

Mas o que seria esse prazer? Será que pensamos corretamente sobre ele? Ou será que somos influenciados por um sistema que nos impõe suas próprias necessidades, vendendo-as para a gente na forma de prazer imediato?

Um pouco de história: o hedonismo e a vida pelo prazer

Embora tão em voga em nosso tempo, o prazer nem sempre foi associado a desejos e paixões. Como nos conta em seu livro “Filosofia para Corajosos”, Pondé mostra que na Grécia antiga o prazer é meramente associado à noção de tranquilidade. Ou de paz, se preferir. Há um certo sentido nisso, não?

Ter prazer significaria estar em harmonia com sua vida. Ter menos preocupações. Viver de forma que não sejamos escravos de alguma obrigação. Para os antigos gregos, desejos e paixões terminam por levar à escravidão. Talvez eles tenham sido os precursores históricos do minimalismo na civilização.

Ser escravos do desejo, mesmo que de forma inconsciente, acabaria por fim sendo um desapego ao prazer. Perceba que o mundo de hoje nos leva a pensar de forma oposta: ter prazer é satisfazer nossos desejos. Muitas vezes, o prazer reivindicado vem mascarado com o conceito de sucesso.

Pode parecer confuso no início, mas se invertermos nossa concepção atual de vida e valores, podemos facilmente perceber a beleza desse pensamento.

Atualmente, quando se fala em hedonismo (a assimilação do prazer como um estilo de vida), imaginamos uma vida meramente estética, no sentido de gozá-la sensorialmente. Desejamos algo palpável. Desejamos ter, além de ser.

O mundo atual aproveita essa demanda e nos fornece várias formas de prazeres sensoriais, como comida e bebidas, automóveis, sexo, roupas, viagens, gadgets eletrônicos e produtos que excita nossa cobiça e, teoricamente, nos dão prazer. Nos oferta um estilo de vida que choca com o estoicismo de Sêneca: “Pobre não é aquele que tem pouco, mas aquele que muito deseja”.

O quanto são perenes tais desejos? Será que esses prazeres não são efêmeros e dependentes de renovação constantemente? O quão escravo você se torna? Para os gregos antigos, esse tipo de vida seria o inferno. Nada estaria mais distante da ideia de prazer.

Mas qual o principal meio, enfim, que faz com que nosso desejo de acumular e trocar coisas seja associado com o prazer?

O medo da humilhação amplia o inferno da vida estética

A sensação de prazer privado é insuficiente muitas vezes. O prazer em impressionar os outros frequentemente fala mais alto. A sociedade do consumo procura satisfazer mais as demandas que esperamos fornecer às pessoas do que nossas próprias. É a obsessão em demonstrar felicidade e sucesso a todos, notória característica no mundo facebookiano atual. Ou para ser mais descolado, instagraniano…

“Não, não estou nesse grupo!”, dirão muitos. Ok, mas quando você realmente fez uma reflexão sobre o assunto? Será que você vive mesmo sua própria vida ou a vida que gostaria de mostrar aos outros? Quão falsos são seus próprios desejos e atos? Já parou para pensar qual a fonte que gera esse padrão?

Isso decorre através da venda da vergonha, como já disse Vicky Robin, autora de Dinheiro e Vida, livro já resenhado nesse blog. As propagandas criam consumidores potenciais quando conseguem envergonhar você por não ter algo. Concebem uma aura de fracasso para as pessoas que não possuem aquele produto que impressiona os outros. Mas fazem você acreditar que possuí-lo é uma fonte para seu próprio prazer.

Para não possuir essa vergonha e esse sentimento de inferioridade, as pessoas correm às compras. Afinal, os gadgets sempre se atualizam e seu modelo já está obsoleto. A moda sempre muda e suas roupas estão ultrapassadas. Os automóveis estão sempre mais equipados, enquanto o seu não oferece os equipamentos nem como opcional. Os restaurantes renovam-se e inventam novas delícias. E as grandes cidades estão sempre empurrando novas atrações para nosso lazer.

O pior acontece quando a vergonha se mistura à inveja, o que faz diminuir ainda mais a sensação de preenchimento que podemos alcançar naturalmente em nossas vidas, gerando atritos potencialmente graves que apenas nos trarão mais ainda para baixo.

“A inveja é o pensamento que nos impede de desfrutar o que temos. No processo de nos preocuparmos e tentarmos alcançar o que os outros têm, não conseguimos nos deleitar com o que já possuímos.”

– S. Ema. Gyalwa Dokhampa

E o círculo vicioso, eterno, fonte de tormentos e angústias – e não de prazer, completa-se. E para muitos, não permite fugas. As pessoas ficam eternamente presas nesse sistema.

Mas o objetivo da vida das pessoas não seria a felicidade?

Quando escrevia esse texto, estava terminando de ler o livro de Yuval Harari, “Sapiens”. Ele nos conta que a felicidade não é dependente das coisas que o consumismo nos oferece, ou seja, condições objetivas de riqueza e aquisição de estima pela sociedade.

Ela é, antes de tudo, dependente da correlação que fazemos entre as condições objetivas e as expectativas subjetivas que possuímos na vida. São essas expectativas que afastam nossa felicidade, pois normalmente desejamos algo que não temos. O quão distante esses dois fatores estiverem, mais improvável seja nossa verdadeira felicidade.

E nossa sociedade, além da vergonha imposta, também turbina nossas expectativas. Sem excesso de expectativas, seria talvez o fim do mundo consumista da forma como conhecemos hoje.

Enquanto isso, os meios de comunicação em massa e a indústria da publicidade seguem esgotando as reservas de felicidade do planeta. Seja por impor a todos nós uma presença maciça de coisas desnecessárias, seja por aumentar nossa intolerância ao desconforto e à possível vergonha que sentimos na tentativa de provarmos como pessoas de “sucesso”.

Vale a pena correr indefinidamente na corrida dos ratos?

Cabe assim analisarmos se essa corrida maluca, sem fim, nos faz, de fato, felizes. Se o constante acúmulo de coisas gera realmente o prazer em viver. Ou gera simplesmente um prazer momentâneo, que logo ficará incompleto assim que sair o novo modelo de gadget ou até o meu vizinho comprar um carro melhor.

Estar nesse círculo é como estar em uma prisão, com uma fonte permanente de angústia. O prazer real não seria estarmos livres desse sofrimento?

Essa é uma das faces da corrida de ratos, termo popularizado no livro “Pai Rico Pai Pobre”, que significa um comportamento raso, inútil, prejudicial à sua vida. Quando me propus a escrever sobre independência financeira nesse blog, citei claramente esse aspecto:

“A LIBERDADE só é frutífera quando, através de REFLEXÕES baseadas na sabedoria do real valor da vida, distante de bens físicos e oculto na rotina, nos possibilita viajar e desfrutar a estrada da vida na forma de uma DANÇA LENTA. Essas VIAGENS, físicas ou não, tornam-se possíveis quando percebermos que estamos presos em uma perversa corrida de ratos, e que sua porta de saída é gerenciar os INVESTIMENTOS de forma equilibrada, nos proporcionando tempo e independência. E são o tempo e a independência que viabilizarão a almejada LIBERDADE.”

E você? Já parou para pensar no que lhe dá real prazer em sua vida? E o que faz você evitar sofrimentos? Adquirir coisas ou procurar mais a paz e a tranquilidade?

Seu comentário aqui no blog é sempre super bem-vindo!

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Cinthia
Cinthia
3 meses atrás

Excelente post!! O nosso livre arbítrio é o que nos faz humanos, nosso bem mais precioso é poder decidir por nós mesmos o que fazer da nossa vida, do nosso dinheiro e do nosso tempo..

Ronaldo
Ronaldo
7 meses atrás

Muito bom texto, André! Parabéns!

“Ter prazer significaria estar em harmonia com sua vida. Ter menos preocupações. Viver de forma que não sejamos escravos de alguma obrigação. Para os antigos gregos, desejos e paixões terminam por levar à escravidão”

Lendo este trecho, comecei a divagar para além da questão financeira. A liberdade sempre foi a minha prioridade máxima e, por causa disso, sempre tive (e ainda tenho) receio de me casar e ter filhos (e assim me tornar escravo de enormes obrigações).

Gostaria de saber a sua opinião a respeito.

Um abraço.

Anônimo
Anônimo
Reply to  André
6 meses atrás

Obrigado pela resposta, André!
Bem pensado. No fim tudo é questão de escolha.
Um abraço!

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