Quanto tempo o dinheiro vai durar? A TNRP com um novo planejamento fiscal na sucessão patrimonial

Aos mais assíduos no blog, a TNRP e a Planilha de Plano Patrimonial não são novidades. Porém, nesse post, comento a respeito de algumas mudanças que fiz em seu cálculo, visando um melhor planejamento fiscal na sucessão patrimonial.

Olá, leitores e leitoras! Após seis meses de meu último post inédito no blog, venho aqui compartilhar algumas novas ideias referente ao preenchimento de minha planilha de Plano Patrimonial e cálculo da TNRP.

Sei que muitos que acompanham blogs de finanças pessoais ainda estão na sua jornada até a independência financeira, acumulando um patrimônio que possibilite, no futuro, gerar renda mensal para todas suas despesas. Porém, alguns já chegaram na etapa de analisar se ainda falta muito ou se já economizaram o suficiente para abandonar o trabalho padrão e partir para sua planejada vida de FIRE.

Quanto tempo durará seu dinheiro?

Já há algum tempo, eu disponibilizei no blog um texto que explica o que é a TNRP e como eu a calculo utilizando a Planilha de Plano Patrimonial. Nesse artigo, eu também esclareço os porquês de eu NÃO utilizar a TSR -Taxa Segura de Retirada, um método muito difundido e usado pelo público para gerenciar as retiradas de dinheiro do patrimônio acumulado.

Não serei repetitivo no método e nas razões que abomino a TSR. Caso desejem conhecer como usar essa metodologia ou como entender a fragilidade da Taxa Segura de Retirada, bem como baixar a Planilha de Plano Patrimonial, essencial para o cálculo da TNRP, acessem o texto abaixo.

A TSR, a Planilha de Plano Patrimonial e a TNRP

Nesse post, o objetivo é explicar como minha TNRP vem evoluindo com o tempo e, particularmente, agora em 2022, algumas alterações que fiz para seu cálculo visando um melhor planejamento fiscal em relação à sucessão patrimonial.

O início da TNRP e da Planilha de Plano Patrimonial

Comecei a usar a planilha de Plano Patrimonial no começo da década, quando um certo professor me fez uma pergunta instigante em uma aula do MBA.

A primeira planilha compreendia um planejamento para os dez anos seguintes, cenário ampliado para 20 anos em 2006 e, a partir de 2008, para 40 anos.

A cada ano, a planilha me retornava uma taxa, que inicialmente mirava os 10%, para a remuneração do crescente portfólio. Apesar de otimista, na época eu estava muito longe da independência financeira, e a planilha era apenas um exercício futurológico que ajudava a me educar no processo de acumulação de patrimônio.

A partir do ano de 2006, comecei a levar mais a sério o planejamento de despesas e a utilizar melhor a planilha. Com um prazo maior de planejamento, comecei a focar mais nas despesas ao invés da taxa, o que era bem mais correto. E percebi que uma taxa resultante de 9% mantinha meus objetivos coerentes. Nos anos seguintes, entre ajustes da taxa e perdas em 2008 no mercado acionário, esse valor ficou mais ou menos constante, vindo a cair para 8% em 2010 e 7% no ano seguinte.

Histórico das planilhas do plano patrimonial
O histórico das Planilhas de Plano Patrimonial

Pedi demissão do meu emprego em 2010, ou seja, estimava, com base no meu histórico de rentabilidade até então, que conseguiria manter rendimentos acima de 7% anuais acima da inflação para consolidar minha independência financeira.

Ainda não tinha clara noção em que estágio eu estava entre a independência e liberdade financeira, tanto que nas planilhas seguintes eu ainda considerei um retorno parcial ao mercado de trabalho (com uma remuneração 4-5 vezes menor do que eu possuía) em uma atividade em que eu possuiria maior domínio de meu tempo, na área onde retornei à universidade. Mas os planos foram alterados.

A queda consistente da TNRP

A partir de 2014, notei que as remunerações do portfólio estavam consolidando-se cada vez mais. A “mágica” dos juros compostos se revelava mais intensamente, ano a ano. Mesmo sem aportes, meu patrimônio subia e fazia com que eu não necessitasse de uma TNRP tão alta, o que culminou com uma taxa real de 2,6% no início de 2020.

Esse número foi alcançado estimando uma redução de metade de meu patrimônio daqui a 40 anos e com um aumento médio de gastos mensais da ordem de 1% ao ano de minhas despesas atuais. Inclui viagens ao exterior a cada três anos e anuais pelo Brasil. E valores significativos para eventuais problemas de saúde que, espero, não se manifestem tão cedo. Ou seja, ainda havia gordura para cortar.

Em 2020 surgiu um fato novo: fui pai novamente, após 26 anos. E, financeiramente falando, isso exigiria um novo planejamento de despesas para o futuro. Estimei um gasto adicional de R$ 400.000,00 nos 21 anos seguintes para suprir as necessidades e educação do Filipe. Com isso, a nova TNRP foi calculada em 2,80% para o período de 2021 a 2061.

Essa mudança resultou em um desafio ligeiramente maior para o futuro. Porém, um leitor me perguntou por e-mail, na época, como que a variação foi tão pequena frente a um grande desafio de se educar um filho para os próximos vinte anos.

A resposta é simples para quem preenche anualmente a Planilha de Plano Patrimonial e calcula as rentabilidades de suas carteiras de investimentos. Primeiro, devemos estar cientes do poder dos juros compostos no tempo: uma rentabilidade anual de 0,20% acumulada nesse tempo frente a um patrimônio significativo, gera uma boa quantidade de riqueza. Segundo, as rentabilidades de minhas carteiras de investimentos foram muito boas em 2020, acima do benchmark do IPCA+5% que utilizo para comparação.

Repare que, com uma TNRP de 2,8%, eu preciso que meu patrimônio rentabilize 2,8% acima da inflação para que ele supra as despesas projetadas. Se, em um ano particular ele subiu bem acima disso, é natural que a TNRP, o diferencial que preciso para os próximos anos, caia. Assim, caso o Filipe não nos tivesse dado a graça de seu nascimento, a minha TNRP diminuiria abaixo de 2,4%. Logo, a comparação do valor de 2,8% não deve ser realizada com a TNRP do ano anterior, mas sim com a qual ela seria caso essa mudança não tivesse ocorrido.

Nesse momento, convido o leitor a criar uma estratégia de avaliação da rentabilidade real de suas carteiras de investimentos anualmente, de forma que possa entender como se comporta a exigência para o futuro da sua expectativa de retiradas mensais de seu patrimônio. Para incentivar, veja como minhas carteiras de investimentos estão estruturadas e suas rentabilidades calculadas mensalmente.

Antes de partir para o último item, no qual desenvolvo a nova ideia no cálculo da TNRP referente à sucessão patrimonial e planejamento fiscal, reforço novamente a vantagem da TNRP sobre a TSR. Se ainda não abriram o texto sugerido, faça-o agora. Como a TSR ajudaria o planejamento com o evento do nascimento do Filipe? Imagine que você vinha de um número mágico e, de repente, toda sua previsão de despesas para o futuro muda? Qual a segurança que uma TSR oferece?

Novo cálculo da TNRP: planejamento fiscal e sucessão patrimonial

Já faz algum tempo que penso em sucessão patrimonial. Talvez a perda de alguns colegas pela COVID e outras inesperadas tenha me alertado que a vida é efêmera e eu, agora com dois filhos no mundo e já na casa dos 50 anos, preciso começar a descomplicar as coisas para eles e fazê-los pagar menos impostos no futuro.

Essa ideia já foi ventilada por mim em um podcast do Boteco FIRE, e foi sendo desenvolvida durante o ano de 2021: a doação gradual anual de meu patrimônio para ambos os filhos.

Para o estado de São Paulo, há isenção de imposto na doação anual cujo valor não ultrapassar 2.500 (duas mil e quinhentas) UFESPs. Em janeiro de 2022, esse montante correspondia a R$ 79.925,00. Algo que fiquei em dúvida é se eu posso doar anualmente apenas esse valor e dividir entre os dois filhos ou posso doar o mesmo valor para ambos. Porém, no site da secretaria da Fazenda de SP existe a seguinte nota:

Logo, entendo que eu poderia doar o mesmo valor para ambos. Porém, esclareço que não tive tempo (nem saco) para fazer uma consulta formal quanto a isso. Se vocês, leitores, possuírem conhecimento no assunto e desejarem comentar abaixo, seria de grande ajuda.

A ideia então é transferir a eles montantes anuais que não excedam esses limites, anotar tudo corretamente na DIRPF anual para que, ano a ano, haja a transferência de patrimônio entre nossos CPFs. Se ocorrer algo antecipado comigo, uma parte da sucessão patrimonial estará feita e eles pagarão menos impostos no futuro.

Assim, para o planejamento e cálculo da TNRP para os próximos anos, eu incluí essa ideia. Antes, a premissa era que eu usasse um montante para minhas despesas de forma que, ao fim dos próximos 40 anos, eu teria um valor equivalente à metade do que possuo hoje.

Agora, com as transferências de doações anuais, o montante residual foi recalculado em 10% do valor de meu patrimônio, por segurança. Falando em outras palavras, com as doações anuais, eu não estou mais me preocupando em deixar herança a meus filhos, uma vez que ela está sendo transmitida anualmente.

Atualização da TNRP

Com essa nova premissa, a TNRP subiu no período de 2022-2062 para 3,0%. Ela não aumentou especificamente devido a essa nova consideração de sucessão patrimonial, mas sim por dois motivos principais: rentabilidades das carteiras de 2021 e recálculo das despesas com o Filipe.

TNRP anual - Plano patrimonial
TNRP anual

Comentei anteriormente que a inflação tem um peso grande no cálculo e, se a rentabilidade de nossa carteira perante a inflação é baixa, há necessidade de recuperação no futuro. No ano passado, a inflação atingiu mais de 10%, enquanto indicadores como o CDI e renda variável (ações e FIIs) ficaram muito abaixo desse valor. Isso naturalmente gera um aumento de TNRP no futuro para “recuperarmos” a rentabilidade desse ano.

Além disso, fiz algumas reconsiderações no cálculo das despesas com o Filipe. Apesar de contar já com um ano a menos de suporte (de 21 para 20), aumentei as despesas necessárias para o futuro em 10%, com a atualização das despesas de educação, que pesquisei melhor durante o ano passado.

Quanto tempo o dinheiro vai durar? A TNRP com um novo planejamento fiscal na sucessão patrimonial 1

Concluindo, eu preciso doravante que meu patrimônio rentabilize 3,0% anuais acima da inflação para que eu, com 92 anos, possua 10% de meu patrimônio ainda intacto. Mas… e se ocorrer algum desvio no cálculo e eu precisar de dinheiro antes e viver após essa idade? Veja as considerações abaixo.

Algumas considerações adicionais na sucessão patrimonial antecipada

O método da Planilha de Plano Patrimonial e TNRP ajuda a você ter segurança quanto aos cálculos, pois tudo é revisto anualmente. Gastos podem ser cortados, transferências podem ser revistas e até novas fontes de renda podem ser buscadas caso algo de grave ocorra. Assim, nada está escrito em pedra e tudo pode ser alterado anualmente.

Na nova ideia de sucessão patrimonial, repare que você não precisa transferir o valor máximo anual para seus filhos: tudo depende de como seus investimentos estão performando. Variáveis como idade (menos tempo para transferência) e valor acumulado são determinantes para definir esse valor.

Ter um bom relacionamento com os filhos também é fundamental. Caso eles sejam maiores (ou após eles crescerem), você pode explicar a eles que esse dinheiro será colocado em um conta à parte, para que eles o usem apenas no momento de sua morte.

Isso também ajuda a evitar temores de erros de planejamento no futuro. Imagine que você doou além da conta e seu patrimônio tenha acabado com você, ainda vivo? Esse bom relacionamento familiar será decisivo para que seus filhos lhe retornem algum dinheiro daquele montante colocado à parte, que você doou no passado.

Últimas palavras

Apesar dos novos gastos futuros, ainda acredito que, pela experiência desses últimos anos, só um evento muito catastrófico me faria voltar a ter um emprego “tradicional” com o intuito de obter mais renda. Usando o método de alocação de ativos e com a experiência que adquiri, é uma hipótese remota. Apenas no caso de um crash histórico, pior do que 1929 ou do final da última década, ou ainda um sequestro financeiro governamental, tal fato poderia ocorrer.

O lado negativo é que, após 2020, essa situação de Mad Max ficou mais próxima de acontecer. Preocupo-me muito com a ascensão da China e com o endividamento monetário do Ocidente e a consequente perda do valor da moeda. Porém, não temos muito como correr dessa situação a não ser manter algumas reservas estratégicas em ativos de imóveis, ouro e bitcoin. O percentual desses dois últimos tem aumentado na minha carteira recentemente.

E, finalizando, lembre-se que um planejamento mediano é melhor do que nada. Um planejamento bem feito é melhor do que um mediano. Você estará mais seguro quanto mais se dedicar a um planejamento sério e eficiente. Se você tem um conhecimento acima da média em finanças, e ainda desconfia, tem medo ou insegurança de largar o osso de seu trabalho e apenas trabalhar com seu patrimônio, é porque ainda não fez um planejamento eficiente.

Nada, entretanto, é mágico: um bom planejamento vai lhe mostrar em que ponto está na jornada da independência financeira. Pode ser que você ainda precisa trabalhar 30, 20 ou 10 anos. Pode ser que ele lhe mostre que você já pode trabalhar em meio período. Pode ser que ele já revele que você é livre e ainda não sabe. Leve-o a sério, refaça-o anualmente e seja feliz!

Explore mais o blog pelo menu no topo superior! E para me conhecer mais, você ainda pode…
assistir uma entrevista de vídeo no YouTube
ler sobre um resumo de minha história
ouvir uma entrevista em podcast ou no YouTube
participar de um papo de boteco
curtir uma live descontraída no Instagram
… ou adquirir um livro que reúne tudo que aprendi nos 20 anos da jornada à independência financeira.

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Vagabundo
3 meses atrás

Grande André, um dos post mais esperados do ano, a nova TNRP ! Sobre sucessao patrimonial o PGBL entra em inventario e o VGBL nao. Estou matando meu pgbl aos poucos por causa disso. Sobre doar diretamente o dinheiro, me parece um limite bem generoso. No caso vc simplesmente investe numa conta no CPF do menino ? Eu fiz assim pra minha filha uma época. Sobre a TNRP, a minha se manteve estavel apesar da má rentabilidade ano passado. Isso porque agora tenho 1 ano a menos pra gastar, e tambem porque adicionei ao calculo uma pequena pensao que vou… Leia mais »

Vagabundo
Reply to  André
2 meses atrás

Fala André, minha planilha vai até 100 anos. Contra o risco fiscal só conheço um remedio – investir no exterior. Abs

Anônimo
Anônimo
4 meses atrás

Bom dia, André. Eu já utilizo a bastante tempo essa interpretação de que o limite de isenção para doações é para cada beneficiário, e nunca tive problemas. Dessa forma, me parece que você pode sim doar 2.500 UFESPs para a sua filha e outras 2.500 UFESPs para o seu filho a cada ano. Você aborda no final do texto a importância do bom relacionamento familiar. Ao mesmo tempo, você tem uma filha já adulta, e um filho recém-nascido. Com relação à sua filha adulta, me parece que ela já está com a personalidade formada, e com isso provavelmente o risco… Leia mais »

Paulo
Paulo
Reply to  André
3 meses atrás

Boa noite, André!

Também penso que o VGBL seria a melhor forma de fazer essa transferência, tanto do ponto de vista de manter a flexibilidade na alocação desses recursos quanto da transferência sem a necessidade de inventário.

Fiquei surpreso com a informação de que mesmo nesses casos o imposto de herança é cobrado por alguns estados. Vou pesquisar mais sobre esse tema, pois pode ensejar uma mudança de estratégia.

Abraços, e continuem com o ótimo conteúdo que vcs produzem aqui.

Anônimo
Anônimo
Reply to  Paulo
3 meses atrás

Paulo, veja minha resposta acima. Abraços!

Anônimo
Anônimo
Reply to  André
3 meses atrás

André, com relação à cobrança de ITCMD sobre o VGBL em alguns estados já houve uma decisão do STJ determinando a ilegalidade dessa cobrança:

https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Paginas/Comunicacao/Noticias/19112021-Valores-de-VGBL-nao-integram-heranca-e-nao-se-submetem-a-tributacao-de-ITCMD.aspx

Abraços!

Anônimo
Anônimo
Reply to  André
3 meses atrás

Ah, e com relação a “esconder” essa informação do seu filho até ele mostrar maturidade para lidar com o dinheiro, dependendo do montante transferido vai ser difícil você fazer isso até mesmo porque terá que apresentar na Declaração Anual de Imposto de Renda dele, caso contrário ele poderá ter problemas com o fisco no futuro. Abraços!

Rafael
Rafael
4 meses atrás

Lega. Só não entendo uma coisa nessa TNRP. Não é algo fora do nosso controle? Calculei por cima e preciso de uma taxa de remuneração de 5%. Tá e ai? Quando será meu retorno está totamente fora do meu controle e nas mãos do mercado.

Rafael
Rafael
Reply to  André
3 meses atrás

Sei lá, pra mim a TSR é algo mais real e controlável por que a única coisa que posso controlar é quanto eu gasto, todo o resto está fora do controle e não adianta colocar meta pois é algo teórico também como a sua TNRP. Mas entendo seu ponto de vista. Obrigado pela resposta

Voando Abaixo do Radar
4 meses atrás

Olá André, boa noite Após conhecer a comunidade FIRE, eu adotei a TSR para dimensionar o patrimônio. Passei alguns meses compilando minhas receitas/despesas/investimentos e obtive uma meta “mediana” do patrimônio futuro que considerava bem orientativa. Um bom efeito colateral foi me aprimorar no conhecimento sobre Excel e VBA avançado que facilitou as simulações em diversos cenários e ajudou nas minhas atividades profissionais. Comecei a estudar sobre a TNRP em meados de 2021 e após conhecê-la tenho refeito as simulações e reavaliado as despesas para os próximos anos. Mas do que avaliar as despesas e os investimentos, fui surpreendido em analisar… Leia mais »

Anônimo
Anônimo
4 meses atrás

Onde é que tu ensinas a calcular a TNRP?

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