Uma década sombria


A década passada foi a pior da história do Brasil. Apesar disso, foi possível fazer dinheiro no mercado financeiro. Entre a insegurança jurídica brasileira e o avanço do empreendedorismo, veja como enxergo os próximos dez anos no país.


Semana passada saiu o dado do PIB anual do Brasil, que possibilitou fecharmos o número de crescimento do país na última década. Foi desanimador: 0,3% ao ano. Pior ainda do que a década de 1980, com todos os problemas com hiperinflação e congelamentos de preços que tivemos. O pior número desde que o indicador começou a ser calculado. Como diz o título desse texto: que fase sombria, não?

Crescimento do Brasil última década (2011-2020)

A queda na taxa de crescimento do PIB foi impressionante, principalmente se nos compararmos a décadas passadas. O pior é que, ao menos para as últimas décadas, essa queda no PIB não está acompanhada de uma queda no PIB mundial. Pelo contrário, estamos perdendo o bonde da história ano a ano. Veja a comparação a seguir.

Comparação do PIB do Brasil com o mundo

Percebam que, mesmo para a década anterior, quando crescemos a uma média de 3,7% ao ano, esse crescimento ficou sempre abaixo da média mundial, e ainda mais distante do grupo dos emergentes.

Entre os anos de 2011 e 2020, o Ibovespa cresceu, em termos nominais, 71,76%. Teoricamente, o crescimento da economia não possui uma relação direta com o crescimento das empresas na bolsa brasileira, até mesmo porque na B3 a representatividade é mínima, comparada à todas as empresas brasileiras. Pior: em momentos de crise, pode ocorrer inclusive concentração no mercado, beneficiando as maiores que, porventura, estão listadas na bolsa.

Entretanto, se considerarmos a inflação pelo IPCA nesses últimos dez anos foi de exatos 71,67%, chegamos à conclusão de que o Ibovespa, por acaso, não se movimentou em termos reais. Uma coincidência infeliz.

Bem na década em que declarei minha independência financeira?

Para as pessoas que acompanharam um pouco de minha história, eu declarei minha independência financeira em março de 2010. Se eu tivesse, no momento, a posse de um almanaque que me mostrasse os gráficos anteriores, talvez estivesse vendendo meu tempo até hoje. Afinal, eu ficaria com muito receio em largar um bom emprego sabendo que o Brasil “estacionaria”. Mas, para minha carteira de investimentos, a década não foi tão ruim assim.

Se listarmos as rentabilidades de minha carteira ativa e compará-las ao CDI, chegamos aos seguintes números:

PeríodoRentabilidade bruta% CDI
2011-2020215,64%157%
2015-2020169,15%264%

Ou seja, os números não refletiram essa estagnação. Foram, porém, muitos pontos que ajudaram a carteira de investimentos a performar bem acima do CDI nesses anos (e ele foi bem alto até 2017). Veja também que a maior parte do rendimento da década veio em sua segunda metade, e é onde gostaria de reforçar brevemente alguns aspectos para as pessoas que gostam de gerenciar seu portfólio. Finalizo com uma mensagem do que penso para os próximos anos.

1) Olhar do dono

Se você pretende criar sua própria carteira de investimentos e ser ativo em sua gestão, separe tempo para a atividade. Não tente fazer tudo ao mesmo tempo.

Avalie seu perfil de investidor, além do perfil de investimento. Se sua atividade profissional demandar mais de 9 horas de seu dia, não tente fazer tudo sozinho. Prefira uma carteira de ETFs ou mesmo investir tudo em fundos de investimentos ativos.

Escolher corretamente os ativos demanda tempo. Na tabela acima, repare que eu fiz questão de destacar o segundo período da década e mostrar como sua rentabilidade foi mais efetiva. As pessoas que leram meu livro talvez se lembrem que, na primeira metade da década meu patrimônio não performou muito bem em função de minhas prioridades no novo curso da universidade. Meu tempo não estava focado na carteira de investimentos.

Uma década sombria 1

Quando me formei, vesti o chapéu de gestor profissional e me dediquei ao portfólio. Foi o suficiente para melhorar muito a rentabilidade. E quais foram os pontos aprimorados?

2) Diversificação

Eu melhorei a diversificação da carteira de investimentos. Apesar dos pilares da alocação de ativos terem se consolidado já em 2011 com a inclusão de fundos imobiliários, eu ainda não explorava adequadamente alternativas, como as debêntures, a venda de opções e os trades (“swing”, não “day”) de minicontratos.

Principalmente durante os anos entre 2016 a 2018 fui muito ativo com essas operações. Elas ajudaram a rentabilizar o patrimônio, porém com a dura realidade de que eu estava usando tempo demais para isso. Comecei a questionar minha própria independência financeira: afinal, o que estava fazendo com meu tempo “livre”?

Isso levou-me à criação de novas carteiras patrimoniais no intuito de eu me desligar dessas atividades devoradoras de tempo. Veja mais sobre elas nessa página-guia.

3) Novas carteiras e rebalanceamentos frequentes

A piora da situação econômica brasileira levou-me também a reavaliar minhas posições em ouro e dólar e a pensar em novos ativos, como as criptomoedas.

O ano passado, especificamente, foi terrível para a nossa moeda. E, apesar das projeções para esse ano sugerirem uma apreciação do real frente ao dólar, é algo que, sensatamente, duvidamos. Vai depender de uma atuação mais enérgica do Banco Central e do presidente parar de falar e fazer tanta besteira. É verdade que o dólar ainda não atingiu sua máxima se descontarmos as inflações no período (seria algo perto de R$8,00 hoje), mas corremos o risco de perder a mão de vez sem ações concretas.

Reforço ainda que o Ibovespa, em dólares, apresenta um crescimento consistente a longo prazo. É verdade que os últimos dez anos não foram bons, mas não justifica tomarmos decisões definitivas com base somente na última década.

Ibovespa em dólar no longo prazo

De qualquer forma, como escrevo mensalmente no acompanhamento das rentabilidades das carteiras, deixei minha posição em câmbio subir da faixa de 10% até os 20%, pois a situação das economias, seja da brasileira como dos Estados Unidos, está muito estranha com esses juros no chão. Podemos ter uma bolha se formando, mas não sabemos quando estourará. Acredito que termos uma reserva investida em ouro (para a situação mundial) e em dólar (para a brasileira) é essencial.

Além disso, fortaleci esses pilares nas novas carteiras de ETFs, incluindo, inclusive, um percentual de 3% na carteira de ETFs completa. É mais uma forma de se tentar proteger de problemas sistêmicos mundiais.

Todas essas ações só possuem sentido se rebalancearmos frequentemente os percentuais de nossa carteira de investimentos determinados pela alocação de ativos. Você tem medo da volatilidade? Assusta-se com seu vigor ainda mais intenso nos mercados brasileiros? Aproveite-a! É justamente ela que permite rentabilizar melhor seus ativos quando os rebalanceamentos são efetivamente realizados.

Finalizando

Tenho notado, seja no Fintwit ou na Finansfera, um pessimismo imenso com o Brasil, potencializado, esta semana, com a notícia da anulação do julgamento do ex-presidente corrupto. Não que eu discorde totalmente dos influenciadores – eles possuem excelentes pontos e argumentos válidos, mas eu enxergo algo ainda de positivo no país, principalmente quando pensamos a longo prazo. E esse pensamento está mais relacionado à economia e ao empreendedorismo, e não pela política.

Meu primeiro ponto é que devemos avaliá-lo em termos relativos ao mundo. Quem, em geral, está muito pessimista com o Brasil, parece-me muito otimista com o mundo. Eu penso diferente, ao menos para o mundo ocidental. Eu não consigo ver ainda uma possibilidade de novas frentes de otimismo lá fora como vejo aqui (justamente pelo nosso “quase” fundo do poço). A pergunta é: vamos performar melhor ou pior relativamente ao mundo ocidental nos próximos dez anos?

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Vejo também uma grande preocupação com o dólar. Apesar de eu já ter comentado acima que ele ainda não está em sua máxima quando consideramos as inflações de ambos os países (embora haja outras formas de analisar a situação, como nesse texto do Foco no Milhão), seu crescimento no ano passado tem assustado muitas pessoas. Porém, se acreditarmos que a economia do Brasil não desandará de vez, é um ciclo que podemos atravessar sem grandes consequências.

É verdade que a insegurança jurídica é péssima. Mas pensem no que já passamos pelas últimas décadas. Mesmo assim, nossa bolsa continuou a se valorizar em dólares. Mesmo se focarmos no péssimo período dos últimos dez anos, onde os pessimistas poderão ter todos os argumentos possíveis para fugir do Brasil, vejam a rentabilidade de minha carteira de investimentos. Veja a rentabilidade de bons fundos de investimentos ativos. Todos performaram relativamente bem. Ou seja, é possível ter uma performance positiva mesmo em cenários tenebrosos.

E a próxima década? Será ainda pior do que essa? Vamos crescer abaixo da média ocidental? Se você acredita nisso, talvez seja hora de levar seu dinheiro para outro lugar. Eu, entretanto, sou um pouco menos pessimista.

Talvez também estejamos levando muito a sério as palavras de um presidente totalmente sem capacidade para entender como a economia funciona. Talvez as palavras deveriam valer menos do que os atos do governo implementados. Tivemos alguns avanços nos últimos três anos, como o teto de gastos, a reforma da previdência e a lei da liberdade econômica. Se não tivermos retrocessos, será que isso não seria um impulso para a próxima década?

Sim, eu sei que a pandemia mudou nossa percepção de futuro. Mudou o equilíbrio fiscal. Imaginem, porém, se ela não tivesse ocorrido: lembram-se de como estávamos entrando bem o ano de 2020? Talvez a história teria sido outra… isso nos leva à outra reflexão: o quando um evento ocasional, como uma pandemia, está atrapalhando nossa visão de futuro para o Brasil?

A insegurança jurídica é mais grave. Esse post já estava praticamente pronto no final de semana, e a notícia da liberação definitiva do corrupto atrapalhou um pouco as ideias. De qualquer forma, não sei as respostas. Mas sei que uma alocação de ativos eficiente e seu rebalanceamento regular podem ajudar a você a estar na frente de 90% do mercado financeiro. Use-os sem moderação!

Explore mais o blog pelo menu no topo superior! E para me conhecer mais, você ainda pode…
assistir uma entrevista de vídeo no YouTube
ler sobre um resumo de minha história
ouvir uma entrevista em podcast ou no YouTube
participar de um papo de boteco
curtir uma live descontraída no Instagram
… ou adquirir um livro que reúne tudo que aprendi nos 20 anos da jornada à independência financeira.

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Danilo
Danilo
6 meses atrás

Excelente texto André, parabéns!

Muito bom ver o seu ponto de vista considerando a sua experiência.
Confesso que estou muito inseguro com o futuro do nosso Brasil levando em consideração os últimos acontecimentos envolvendo o meio politico que consequentemente acaba afetando a todos. Acredito que isso pode causar impactos negativos na nossa economia até maiores que a pandemia já vêm causando. Torço para que não aconteça, mas avaliando o cenário a curto prazo é bem desanimador. Vamos aguardar as cenas dos próximos capítulos.

Muito obrigado, mais uma vez, por compartilhar conteúdos valiosíssimos conosco.

Forte abraço!

marcos carvalho
marcos carvalho
7 meses atrás

Na verdade nada está tão ruim que não possa piorar (vide o caso da Argentina, por exemplo). E me parece (talvez seja um pesadelo) que seremos eles amanhã. Eu tenho como meta ter meu patrimonio financeiro meio a meio entre ativos em reais e em dolares ou outras moedas fortes. Um dado que vce não citou e que me inquieta muito no presente momento é essa relação divida/pib assustadoramente mais alta que na década passada mesmo no atual patamar de juros. E ainda teremos eleições pela frente que estão sendo antecipadas cujo um dos candidatos volta a ser o que… Leia mais »

Bilionário do Zero
7 meses atrás

Olá! Eu estou em dúvida com o Brasil, por um lado otimista vendo que as commodities estão bombando e que as fábricas estão cheias de pedidos, pelo menos aqui na minha região, contratando e trabalhando muito pra produzir maquinário agrícola. Por outro lado, a política e o STF conseguem prejudicar bastante a reputação do Brasil e vejo que nos últimos anos nossa bolsa tem sofrido com a corrupção dos políticos que tem cargos em grandes empresas estatais. A pandemia acelerou algumas tendências e nós precisamos avaliar bem onde investir, como você bem colocou, isso demanda muito tempo, eu estou acompanhando… Leia mais »

Paulo Guedes
Paulo Guedes
7 meses atrás

ahhhh SEEEE não fosse a pandemia.
o Brasil estaria voando!!!! Kkkkkkkk
mas ocorre que a pandemia tá aí!

Thiago
Thiago
7 meses atrás

Muito bom, parabéns.
Não acompanhava muito a finansfera em 2014, eleição da Dilma. Também deve ter sido pesado o clima. Para mim o período atual tem sido mais complicado por que tenho mais patrimônio para me preocupar, rs. Bom ter a visão de quem já tem mais experiência.

Nice
Nice
7 meses atrás

Esses tempos sombrios é assustador pra quem não entende,mas eu confio na sua experiências bjs

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