Quando usar o dinheiro vale a pena. E a nova realidade da renda fixa


Você costuma usar o dinheiro em suas compras à vista e resgatá-lo imediatamente dos investimentos de curto prazo de renda fixa?

Ou, ao invés disso, prefere usar o cartão de crédito e resgatar seus investimentos somente no seu vencimento?

Como a nova realidade da renda fixa pode mudar seus hábitos?


Como comentei em outros textos, estamos vivendo uma situação inédita no país. Mares nunca dantes navegados, diriam os mais inspirados.

Os juros a níveis atuais e com novas perspectivas de quedas, provocam muitas reflexões. Porém, as jabuticabas brasileiras, somadas a uma situação econômica inédita as deixam muito distantes de um futuro previsível.

Alguns pensamentos, mesmo enquanto meros exercícios, são provocados por observações que podem nos auxiliar a repensar algumas práticas que adquirimos com o tempo e nos ajudar a obter algumas vantagens do momento atual.

Como, por exemplo, parar de ansiar por ganhos de curto prazo na renda fixa e usar mais o dinheiro para fazer compras.

Usar o dinheiro ou cartão de crédito nas compras com a nova realidade da renda fixa?

Quando usar o dinheiro como pagamento

Nesses últimos dias estive em uma pequena viagem para algumas cidades serranas do RJ e SP. Notei um fato interessante na maioria das lojas por lá: uma diferenciação muito acentuada nos preços através do pagamento em dinheiro e cartão de crédito.

A lei que permite a prática efetiva da liberdade de preços já possui mais de dois anos, tendo sido sancionada pelo ex-presidente Michel Temer em junho de 2017. Embora seja fácil perceber sua aplicação no comércio on-line, pela diferenciação de preços para compra com cartão de crédito ou boletos bancários, nunca notei algo diferente nas lojas da minha cidade.

É possível que esse estranhamento ocorra pelo fato de que em nossas metrópoles costumamos a “passear” em lojas em shoppings-centers, enquanto nas pequenas cidades turísticas o comércio de rua é preponderante. Mas o fato é que, ao menos nelas, pode valer muito a pena sacar uma boa quantia de dinheiro no caixa eletrônico antes da viagem.

O tamanho dos “descontos”

A maioria das lojas, apesar de aceitarem o cartão de crédito na transação, estimulam os consumidores a pagar em dinheiro, oferecendo bons “descontos”. É verdade que essa é a forma ingênua de vermos a situação: é mais provável que estejamos à frente de um aumento de preços para usarmos a “maquininha”. Mas, na prática, não altera muito nossa realidade objetiva qual dos preços são o valor “justo”.

O fato é que os descontos superam, na média, os 10% quando usamos o dinheiro. E na maioria das vezes, não estamos falando de parcelar a compra no cartão. Os lojistas só faziam isso se o valor total fosse considerável. Mesmo assim, em no máximo 3 vezes.

Blusas que custavam R$60,00 eram vendidas em dinheiro por R$ 50,00. Um desconto de quase 17%. Jaquetas, comercializadas no cartão de crédito por R$ 150,00, podiam ser adquiridas por R$ 120,00, com um desconto de 20%. Olhando individualmente pode parecer pouco, mas… e quando olhamos de forma relativa?

A nova realidade dos juros baixos

Quando os juros eram mais altos no Brasil, era comum fazermos a “conta” se valia a pena pagar à vista ou deixar o dinheiro rendendo nas aplicações de renda fixa. Hoje, com a nova realidade, é uma perda de tempo. Porém, ainda resistimos a abraçá-la e pensar seriamente em andarmos com dinheiro no bolso para aproveitar as barganhas.

Para sair dessa realidade que não existe mais, temos que gravar com letras garrafais em nossa cabeça que os juros reais estão abaixo da expectativa de inflação (já considerando a redução da Selic para 4,5% em dezembro). Em outras palavras: dinheiro na renda fixa pós-fixada (poupança, fundos DI, CDBs atrelados à Selic, títulos Selic do Tesouro Direto) estão com rendimentos reais negativos.

Isso ainda pode parecer chocante. Mas é a realidade atual. Ainda tenho algumas dúvidas se veio para ficar, mas, ao menos por um tempo, vamos conviver com ela. Precisamos nos adaptar rapidamente aos novos tempos para extrairmos alguma vantagem da situação.

Usar o dinheiro vivo vale a pena, então?

Qualquer desconto no pagamento de dinheiro é válido. A nova realidade nos poupou da tarefa de pensar nessas situações. Se a preocupação com segurança for mais forte (afinal, andar com notas no bolso no Brasil é, de fato, preocupante), faça a mesma analogia com o cartão de débito. Também conseguimos muitos descontos com ele, ao invés do cartão de crédito.

Não tenha pena de seu dinheiro no fundo de investimentos com mais de dois anos cujo o imposto de renda caiu já a 15%. Nem do saldo remunerado da sua Nuconta. Muito menos se apegue aos seus títulos indexados pelo CDI e Selic: eles não valem mais do que um bom desconto.

Para não ficar mal-entendidos, não estou abordando aqui trocar o dinheiro guardado em sua reserva financeira, redirecionar os aportes para sua carteira de investimentos e o rebalanceamento de seus ativos e mergulhar no consumismo. Estou apenas sugerindo que, se o gasto for ocorrer de qualquer modo, que ocorra de uma forma mais econômica possível. Pagar em dinheiro ou no cartão de débito pode ser uma boa opção.

Pagar em dinheiro será algo passageiro?

Pode parecer estranho um texto em fins de 2019 sugerindo o uso do dinheiro físico como pagamento em nossas compras. Afinal, em países como a Suécia ou China, ele está em extinção. O mundo está cada vez mais on-line e pagamentos sem dinheiro são a nova fronteira das transações econômicas, embora há empresas que apostem contra essa tendência.

Cabe aqui, entretanto, uma observação: o uso de novas tecnologias pode muito bem ser comparado à utilização do dinheiro nas compras, quando a transferência do comprador para o vendedor é feito de forma quase instantânea. Com a queda das taxas de adquirência o custo pago para receber com cartões de débito ou QR code pode compensar a segurança na não manipulação das notas físicas e melhor controle do faturamento.

Assim, usar transações on-line não impede seu uso como pagamento. O verdadeiro antagonismo acaba sendo mesmo com o cartão de crédito, onde as taxas e o prazo de recebimento são maiores para os vendedores. A grande vantagem, talvez, seja a ideia de parar de utilizar o cartão de crédito de forma automática, acreditando em vantagens inexistentes, e não pensar em usar o dinheiro físico em si.

Se possuímos um cartão de crédito com pontos ou milhagens, a tendência de fazer escolhas erradas aumenta, pois pensamos muito mais no acúmulo das “vantagens” do cartão do que perceber as vantagens a cada compra à vista. Para entender mais sobre os custos de oportunidade, tanto sob a ótica de demanda e da oferta, veja o texto onde mostro que, ao menos para mim, não compensa possuir um cartão com milhagens.

E vocês, leitores? Usam mais o dinheiro para as compras (seja eletrônico ou não) ou preferem o cartão de crédito?

Explore mais o blog pelo menu no topo superior!…
Ou leia um pouco de minha história aqui ou então, ouça a entrevista que fiz para o podcast do blog SRIF365.

E, se gostou do texto, por que não ajudar a divulgá-lo em suas redes sociais através dos botões de compartilhamento?

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AndréSimplicidade e HarmoniaAdrianaSrIF365 Recent comment authors
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Simplicidade e Harmonia
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André,

“Pode parecer estranho um texto em fins de 2019 sugerindo o uso do dinheiro físico como pagamento em nossas compras. ”
Com tanta concorrência, talvez as administradoras de cartão comecem a repensar as taxas. O que seria bom para nós e para os lojistas, pois andar e receber dinheiro em espécie não é algo muito recomendado devido aos altos índices de violência encontrados no país.

Boa semana!

André
Admin

É verdade, Rosana! Esse é o argumento principal contra o uso do dinheiro. Tem de ser para pequenos valores mesmo.

Se o medo for grande, podemos pensar no cartão de débito. Com ele dá para garimpar alguns descontos também! 🙂

Boa semana!

Adriana
Visitante

André, eu acredito que utilizar o dinheiro e principalmente o cartão de débito é uma forma melhor de controlar os gastos, afinal, se usa o dinheiro que se tem disponível, não aquele que de repente vai entrar na conta somente no mês seguinte. Gosto de não precisar me preocupar em pensar que “tenho que pagar a fatura do cartão até o dia X”. Deixo o cartão de crédito para Uber e compras pela internet pela facilidade e quando vejo que a fatura já está se tornando um pouco alta ainda vou lá e antecipo o pagamento, tudo em nome da… Read more »

André
Admin

Olá Adriana!

Você encontrou uma forma de economizar de forma permanente, criando esse hábito em suas rotinas financeiras. É a fórmula certeira para o sucesso! Parabéns!

Muitas pessoas veem isso como desnecessário, até sentem vergonha de pedir em desconto, sem se conscientizar como, no longo prazo, isso fará diferença no futuro.

Sua independência financeira vai chegar, com certeza, bem antes do que a imensa maioria das pessoas que, um dia, irão alcançá-la.

Abraço!

SrIF365
Visitante
SrIF365

“Precisamos nos adaptar rapidamente aos novos tempos para extrairmos alguma vantagem da situação. ”
Discordo totalmente. Isso é passageiro e se ficar se “adaptando” só estará girando patrimonio e pagando imposto. Fique quieto no seu lugar até a tempestade passar. Vivemos um bear em renda fixa. Todo bear terá seu bull e todo bull terá seu bear. Simples assim, a economia é cíclica.

André
Admin

Olá Sr. IF! Um prazer vê-lo por aqui! Eu discordo da conclusão de seu pensamento, mas concordo com sua ideia de ciclicidade. O primeiro ponto é que não sabemos o que é passageiro e o que veio para ficar. Já não faço exercícios de futurologia há tempos. O custo a ser pago de oportunidades perdidas não compensa normalmente os ganhos. O segundo ponto é que, justamente por concordar que o bear virará bull e vice-versa, é que precisamos mover nossas pecinhas, se adaptando à situação vigente. A alocação de ativos funciona exatamente assim e traz excelentes resultados, mesmo que se… Read more »

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