Morte e arrependimentos: dinheiro demais é mesmo importante?


Por que a morte é tratada como tabu se somente sua inevitabilidade é motivo suficiente para redirecionarmos algumas atitudes em nossa vida?

Veja a aprenda com as pessoas que refletiram sobre isso apenas quando já estavam em seu leito de morte. Será que elas deram importância à quantidade de dinheiro que acumularam?


Não muito tempo atrás, a Yuka, do blog Viver sem Pressa, publicou um artigo sobre reflexões sobre a morte, que foi muito aplaudido e comentado pelos seus leitores (inclusive eu). Antes do Filipe nascer, estava terminando a leitura de um livro que evocou novamente muitos pensamentos sobre o assunto.

Pensar na morte é realmente um tabu, mas é uma forma excelente de refletir sobre a vida que estamos vivendo agora, uma vez que não sabemos quando tempo nos resta e a oportunidade para mudarmos de direção pode, simplesmente, um dia, acabar.

Morte e arrependimentos: o dinheiro é mesmo importante?

É possível que pessoas que se encontram em idade mais avançada possuam muitas perguntas que poderiam ser solucionadas bem antes em sua vida se soubessem que ela é finita, que talvez não foram feitas pela falta de compreensão que a morte é o nosso destino certo. Responder profundamente algumas questões permiti-las-iam encontrar respostas e paz mais cedo.

Talvez pensemos em alcançar objetivos de real valor. Metas com verdadeira importância. Decisões em guiar-se menos pelo ego e mais pelo o que nos faz realmente felizes. Com a devida consciência sobre essas questões e com coragem, você exerce sua liberdade de escolha e reforça sua responsabilidade para a vida que quer criar ou modificar.

O que você diria se sua partida estivesse próxima?

O livro em questão, “Antes de partir: os 5 principais arrependimentos que as pessoas têm antes de morrer“, escrito por Bronnie Ware, é um livro autobiográfico de uma cuidadora de idosos que conviveu por muito tempo com inúmeras pessoas com doenças terminais. No livro, ela narra todos seus desejos não realizados e principais arrependimentos. É excelente, uma lição de vida. É mais um livro disponível para os assinantes do Amazon Prime, cujo serviço até hoje, é o de melhor custo-benefício que já encontrei.

Abaixo citarei alguns trechos do livro mais relevantes dentre os temas já abordados pelo blog, principalmente sobre o trabalho e, posteriormente, de forma resumida, sobre a felicidade e a simplicidade. O livro não se resume a eles, entretanto. É algo que vale a pena ler por inteiro.

Sobre trabalho

Um dos dilemas que vemos na finansfera é a manifestação do dilema de quando parar de trabalhar e viver de seus rendimentos. Alguns já possuem milhões de reais. Destes, uns já largaram a mão do trabalho 24/7, mas outros ainda o mantém. Para quem ainda não chegou lá, a dúvida persiste e a insegurança pode ser um agravante para trabalhar mais do que o necessário.

John foi um dos pacientes terminais de Bronnie. Veja o que ele revelou em seus últimos dias:

“Influenciado pela paz da tarde, John declarou: — Eu desejaria não ter trabalhado tanto, Bronnie. Que tolo estúpido eu fui! — Sentada na outra cadeira de espreguiçar no terraço, eu olhei para ele. Ele não precisou de incentivo para continuar: — Eu trabalhei duro demais e agora sou um homem solitário, agonizante. O pior é que fiquei sozinho na maior parte de minha aposentadoria, e não precisava ter ficado. — Fiquei ouvindo-o me contar a história toda.

John e Margaret haviam criado cinco filhos, quatro dos quais tinham agora filhos próprios. O quinto havia morrido no começo dos trinta. Quando todos os filhos estavam adultos e fora de casa, Margaret pediu a John para se aposentar. Eram ambos dispostos e sadios e tinham dinheiro suficiente como fundo para se aposentarem bem. Mas ele sempre dizia que eles poderiam precisar de mais. Margaret respondia a cada vez que eles poderiam vender sua enorme e agora vazia casa e comprar alguma coisa mais apropriada se preciso, poupando mais dinheiro.

Por quinze anos essa batalha prosseguiu entre eles, enquanto ele continuou trabalhando. Margaret era solitária e desejava reinventar o companheirismo dos dois sem crianças nem trabalho. Por anos ela devorou panfletos de viagem, sugerindo países e regiões diferentes para visitar. John também tinha um desejo de viajar mais e concordava com isso onde quer que Margaret sugerisse. Infelizmente, ele também gostava do status que seu trabalho lhe dava. Ele me contou que não gostava particularmente do trabalho em si, só da posição que ele lhe dava na sociedade e entre seus amigos. A busca de fechar um negócio havia se tornado um pouco como um vício para ele.

Numa noite com Margaret em lágrimas, pedindo a ele para finalmente se aposentar, ele olhou para aquela bela mulher e percebeu que ela não apenas estava desesperadamente solitária sem sua companhia, mas que ambos já eram pessoas idosas agora. Essa mulher maravilhosa esperara tão pacientemente por que ele se aposentasse! Olhando para ela, ela estava tão bela quanto no dia em que a conhecera. Mas foi a primeira vez em sua vida que John refletiu que eles não iriam viver para sempre” (…)

“Embora petrificado por motivos que não podia justificar, ele concordou em aposentar-se. Margaret pulou para abraçá-lo, suas lágrimas mudando de tristeza para alegria. Mas o sorriso não durou muito, desaparecendo no minuto que ele acrescentou que isso “levaria mais um ano”. Havia um novo acordo sendo negociado no momento na companhia e ele queria vê-lo concluído. Claro que ela podia esperar por um ano a mais. Era um acordo, mas um acordo com o qual ela concordou relutantemente.

Quando o sol desapareceu de vista, John me contou que ele se sentira egoísta por sua escolha já naquele momento, mas que não poderia se afastar sem fazer apenas mais um negócio. Sonhando com essa ocasião havia anos, as coisas começaram a ficar reais para sua adorada esposa. Ela fez alguns planos reais, ao telefone com o agente de viagens, regularmente. Toda noite enquanto ele vagava fora de casa, ela ficava esperando por ele com o jantar preparado. Enquanto comiam à mesa que havia uma vez acomodado a família toda, ela compartilhava com ele seus pensamentos e ideias com grande empolgação.

John estava começando a acalentar a ideia de se aposentar agora também, embora ainda insistisse em manter os doze meses até o fim se Margaret sugeria o contrário. Com quatro meses desde a sua aceitação de se aposentar e oito ainda por transcorrer, Margaret começou a sentir-se enjoada. A princípio foi um pouco de náusea, mas depois de quase uma semana ela não havia passado. — Marquei uma consulta com o médico amanhã — ela lhe disse quando ele voltou do trabalho. A noite já estava escura. — Mas tenho certeza de que não é nada — ela disse, tentando parecer animada.

Embora John estivesse preocupado por ela não se sentir bem, não lhe passou pela cabeça que isso fosse além da noite seguinte, quando Margaret disse que o médico havia sugerido alguns exames. Contudo, mesmo que os resultados nada houvessem revelado na semana seguinte, o aumento no desconforto dela e a dor que ela sentira a seguir teriam revelado que alguma coisa estava errada. Eles simplesmente não haviam contado com quanto estava errado. Margaret estava morrendo.”

Não sabemos do futuro. Não sabemos até quando estaremos aqui e até quando as pessoas estarão. Não demore muito para fazer a diferença para alguém ou para o mundo. Será que seu trabalho tem um fim mais nobre do que esse? Ah, mas o dinheiro é necessário…

Morte e arrependimentos: dinheiro demais é mesmo importante? 1

É exatamente por isso que esse blog bate com tanta força na conquista da independência financeira e aposentadoria antecipada. Aposentar-se para quê?, dizem alguns… Seria difícil entender o porquê avaliando o estado emocional de John antes de sua morte? Ele continuou:

“Nós passamos tanto tempo fazendo planos para o futuro, sempre dependendo de as coisas virem numa data posterior para assegurar nossa felicidade ou presumindo que temos todo o tempo do mundo, quando tudo que temos é nossa vida hoje! Não era difícil entender os profundos remorsos com os quais John convivia agora. Eu entendo como as pessoas podem amar seu trabalho, e não há necessidade de sentir-se culpa por isso. Eu também amava meu novo trabalho agora, a despeito da tristeza que com frequência o acompanhava.

Mas, quando perguntado se teria gostado de seu trabalho tanto assim se não tivesse tido uma vida de família tão apoiadora, John balançou sua cabeça. — Eu gostava do trabalho o suficiente, claro. E eu definitivamente amava o status, mas, qual será o sentido disso agora? Eu dei menos tempo àquilo que me mantinha vivo: Margaret e minha família, minha querida Margaret. Seu amor e apoio sempre estavam lá. Mas eu não estava lá para ela. Ela era muito divertida também. Nós teríamos nos divertido tanto por aí, juntos!

Margaret havia morrido três meses antes que John estivesse dentro do prazo de aposentar-se, embora ele houvesse já se afastado àquela altura devido à saúde dela. John me revelou como sua aposentadoria foi atormentada pela culpa desde então. Mesmo quando chegou a certo ponto de aceitação sobre seu “erro”, como ele o chamou, ele ansiava por estar viajando e rindo com Margaret agora.” (…)

“— Eu acho que estava assustado. Eu estava. Eu estava petrificado. Meu trabalho havia me definido, sob certo ponto de vista. Claro que agora, quando me encontro aqui morrendo, vejo que ser apenas uma boa pessoa é mais do que suficiente na vida. Por que dependemos tanto do mundo material para termos valor? — John pensou em voz alta, sentenças aleatórias cheias de tristeza tanto pelas passadas quanto pelas futuras gerações que queriam tudo, baseando sua importância no que possuíam e no que faziam, em vez daquilo que eram no fundo de seu coração.

— Não há nada de errado em querer uma vida melhor. Não me interprete mal — ele disse. — É só que a procura por mais e a necessidade de ser reconhecido por nossas conquistas e pertences podem nos desviar das coisas reais, como o tempo a passar com aqueles que amamos, o tempo para fazer as coisas que nós mesmos amamos, e nos afastar do equilíbrio. Provavelmente é tudo uma questão de equilíbrio realmente, não é?” (…)

“— Se eu posso lhe dizer uma coisa sobre a vida, Bronnie, é esta. Não crie uma vida em que você vá se arrepender de ter trabalhado duro demais. Posso dizer agora que não sabia que iria me arrepender disso até que estivesse agora encarando o próprio fim. Mas, no fundo do meu coração, eu sabia que estava trabalhando duro demais. Não por Margaret, mas por mim também. Eu teria adorado não dar bola ao que outros pensavam de mim, como não dou agora.

Eu fico pensando por que temos que esperar até que estejamos morrendo para descobrir uma coisa dessas. Balançando a sua cabeça, ele continuou falando. — Não há nada de errado com amar seu trabalho e querer se empenhar nele. Mas há tanta coisa mais nesta vida! O equilíbrio é que é importante, manter o equilíbrio.”

Equilíbrio! Talvez seja uma das palavras mais citadas nesse blog. Pense e pratique, verdadeiramente, seu significado.

Jozsef, outro paciente terminal de Bronnie, chegou à mesma conclusão de John, embora o trabalho para ele não era basicamente uma extensão de seu ser, mas uma forma de se proteger emocionalmente. Se você possui um patrimônio considerável e ainda vende suas horas de trabalho a alguém, é possível que você sofra da mesma sensação? Veja o que ele conclui no leito de morte:

“— Eu desejaria não ter trabalhado tanto. — Esperando, deixei-o prosseguir. — Eu amava meu trabalho, eu realmente o amava. Era por isso que eu trabalhava tanto, por isso e para sustentar minha família e a família deles. — Bem, foi uma bela coisa, então. Por que lamentá-la? Ele explicou que seus remorsos eram em parte devido à sua família, que o tinha visto tão pouco na maior parte de sua vida na Austrália. Mas isso se devia muito mais ao fato de ele sentir que nunca dera a eles uma chance de conhecê-lo.

— Eu ficava com medo demais de deixar meus sentimentos transparecerem. Por isso trabalhava e trabalhava e mantinha a família a certa distância. Eles não mereciam ficar tão sozinhos. Agora eu desejaria que eles realmente tivessem me conhecido. Jozsef disse que ele próprio não havia se conhecido até anos recentes, de modo que questionava como eles poderiam ter tido uma chance de conhecê-lo, de qualquer modo. Seus belos olhos ficaram tristes quando conversamos sobre os padrões de relacionamentos e como é difícil quebrá-los. Também discutimos quão necessário é para um relacionamento atingir seu maior potencial. Ele sentia que havia perdido a oportunidade de criar uma afetividade com seus filhos. O único exemplo que sempre dera fora como ganhar e valorizar o dinheiro.” (…)

“Ver a angústia que Jozsef experimentara em não ser capaz de expressar seus sentimentos deixou-me determinada a sempre tentar ter coragem suficiente para compartilhar os meus. Meus muros de privacidade estavam sendo erodidos e comecei a me perguntar por que todos nós temos tanto medo de ser abertos e honestos. Naturalmente, é para evitar a dor que pode sobrevir como consequência de nossa honestidade. Mas, esses muros que nós criamos trazem sua própria dor, impedindo os outros de saber quem nós realmente somos. Ver as lágrimas rolarem pelo belo rosto daquele homem idoso, já que ele ansiava por ser conhecido e compreendido, mudou-me para sempre.”

Sobre felicidade e simplicidade

A felicidade (e como usar o dinheiro para conquistá-la) também já foi assunto publicado no blog. Alguns pacientes de Bronnie não se permitiram ser felizes em função de excesso de negatividade. Veja o conselho dado pela autora a Rosemary:

 “— Porque a felicidade é uma escolha, Rosemary, uma escolha que eu tento fazer todo dia. Em alguns dias não consigo. Como você, tive uma vida difícil também, de modos diferentes, mas ainda assim duros. Mas, em vez de ficar me detendo no que está errado e com que dificuldade eu a vivi, tento encontrar as dádivas de todo dia e apreciar o momento que estou vivendo o mais que posso — eu lhe disse francamente. — Nós temos a liberdade de escolher onde focalizar nossos pensamentos. Eu tento escolher as coisas positivas, como ter conhecido você, fazer o trabalho que eu amo, não ficar sob pressão para alcançar metas comerciais e apreciar a minha saúde e todo dia em que estou viva. — Rosemary sorriu, olhando para mim intensamente enquanto absorvia minhas palavras.”

“— Bem, só finja ser, por uma meia hora. Talvez você vá gostar da coisa o suficiente para ficar realmente feliz. O ato físico de sorrir muda suas emoções de certo modo, Rosemary. Por isso eu a desafio a não fazer carranca, se queixar ou dizer qualquer coisa negativa por meia hora. Em vez disso, diga coisas agradáveis, concentre-se no jardim se quiser, mas lembre-se de sorrir — eu a orientei. Lembrando a Rosemary que eu não a conhecera no passado, permiti que ela fosse quem ela quisesse ser nesse momento. Às vezes a felicidade exige um esforço consciente.”

Muita dessa infelicidade provém da complexidade que criamos em nossa vida. Simplicidade e minimalismo também esteve entre os assuntos desse blog. Veja uma reflexão da autora sobre o assunto:

“Nenhuma das revisões de vida que eu presenciei em seus leitos de morte se voltou para o desejo de que tivessem comprado ou possuído mais coisas, nenhuma delas. Em vez disso, o que mais ocupa os pensamentos das pessoas que vão morrer é como elas viveram sua vida, o que fizeram, e se fizeram uma diferença positiva para aqueles que deixaram para trás, fossem esses a família, a comunidade, fosse quem quer que fosse.” (…)

“As coisas que você frequentemente julga precisar são simplesmente as coisas que o mantêm preso a uma vida não preenchida. A simplicidade é a chave para mudar isso e deixar para lá a necessidade de afirmação por meio da posse ou por meio das expectativas que os outros nutrem a seu respeito.”

Reflita…

Espero que esses pequenos trechos do livro, escolhidos em função dos temas já abordados nesse espaço, sejam suficientes para encorajá-lo(a) a dar uma olhada na obra. Como já comentei muito aqui, a humanidade está em evolução contínua porque podemos nos apoiar em experiências passadas. Podemos sempre evoluir se mantivermos uma mente aberta para reflexão a aprender sempre mais. Inclusive sobre nós mesmos e nosso papel no mundo.

Nos exemplos do livro, as pessoas ainda puderam, mesmo que tardiamente, refletir sobre muitas coisas que fizeram errado e tentaram passar esse conhecimento adiante. Menos mal. Morreram com algum alento. Mas imaginem as pessoas que nos deixam repentinamente? Será que alguns de nós não estaremos um dia nesse grupo? Quem pode garantir? Como você garantirá sua paz sem essa certeza?

Talvez o pior pensamento que possa vir a esse respeito é morrer sabendo que a oportunidade de mudar e melhorar a direção de sua vida e das pessoas em seu entorno bem antes de sua morte simplesmente lhe escapou. Como lidar com essa sensação na eternidade?

Explore mais o blog pelo menu no topo superior! E para me conhecer mais, você ainda pode…
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… ou adquirir um livro que reúne tudo que aprendi nos 20 anos da jornada à independência financeira.

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