Quando parar de trabalhar? Lidando com as incertezas


O que considerar para decidirmos o momento de parar de trabalhar, evitando a falta de dinheiro, mas também não se obrigando a trabalhar demais?


Acredito que o maior desafio para as pessoas que estão pretendendo se aposentar, seja da forma tradicional como na aposentadoria antecipada, é lidar com as incertezas financeiras. Poderíamos até incluir as incertezas pessoais, como a falta de um trabalho, de uma posição de poder, de amizades corporativas, mas aqui nesse texto quero falar um pouco sobre as dúvidas em nosso orçamento futuro.

Eu já escrevi que não vejo mais como, com minha idade e pequeno fluxo de caixa positivo, como me aposentar muito antecipadamente. O significado que vejo na minha aposentadoria é, tão somente, não depender de meus filhos mais tarde, que já acredito ser um bom legado a eles.

Quando parar de trabalhar e largar seu emprego

Não quero, porém, ficar trabalhando após (ou muito após) de minha aposentadoria tradicional. Essa determinação nos obriga a fazer um cálculo de duração de nosso patrimônio, considerando nossas despesas e expectativa de vida. Isso não é segredo para quem é leitor desse blog, pois o André disponibilizou uma planilha para calcular justamente isso através da planilha de Plano Patrimonial e o cálculo de TNRP.

Mas, mesmo com ferramentas como essas, as variações possíveis no resultado do número de anos mais adequado para continuarmos trabalhando varia consideravelmente, pois cada pessoa acredita que precisa de um determinado valor para sentir-se tranquilo com seu patrimônio. Como dosar essas expectativas para não nos mantermos escravos por muito tempo?

Um paralelo com a reserva de emergência

Quem me acompanha nesse blog viu que sofri um pouco para construir minha reserva de emergência, em meio a debates intermináveis e tensos com minha família consumista, que, ao menos os filhos, vem apresentando progresso.

Algo que aprendi é que a reserva de emergência não pode ser subavaliada, pois podemos precisar desse valor em situações inesperadas e não podemos contar com as aplicações da carteira de investimentos, uma vez que, para rentabilizar melhor, elas não estão alocadas em ativos previsíveis e líquidos.

Exatamente por motivos similares, ela também não pode ser superavaliada, pois, se deixarmos muita grana em investimentos líquidos com baixa rentabilidade, prejudicamos a composição dos juros que tornarão possível o sonho da independência financeira.

Para definir o montante necessário para se declarar independente financeiramente, devemos também pensar em situar nosso cálculo em um valor intermediário. Se acreditamos muito no potencial de nosso patrimônio e decidirmos parar de trabalhar prematuramente, corremos o risco de precisar voltar novamente a procurar um emprego no futuro, se as coisas não acontecerem exatamente como previmos anteriormente.

Se, entretanto, continuarmos trabalhando sem fim, descrentes com a possível rentabilidade de nossa carteira de investimentos e nunca acreditando que possuímos o montante necessário para nos aposentar, de que valerá o resto da vida que temos? Pior ainda se o trabalho nos mantém em estado de estresse com frequência. E a saúde, como fica?

A ideia desse post ocorreu após a leitura do último artigo do site do Frugal Simples, que disse que está chegando a 5 milhões de patrimônio mas continua trabalhando sob alto estresse, não extraindo prazer algum em sua vida. Para quê?

Poxa, 5 milhões daria para tirar tranquilamente mais de R$ 20mil por mês de renda líquida se bem investidos. Se ele vender seus imóveis e investir em fundos imobiliários, daria para tirar ainda mais. Será que o significado de “frugal” se alterou?

Eu leio o Frugal há tempos a admiro muito sua tenacidade e suas conquistas, ainda mais vindo de uma família simples. Exatamente por isso fico pensando se, em algum momento da vida, não ficamos meio absortos em apenas acumular mais patrimônio e não percebermos mais onde está o portão de saída. Continuamos na corrida de ratos, mesmo com a possibilidade de sairmos dela e vivermos melhor.

Fico meio preocupado com tudo isso. Talvez, no meu caso, pensando na família consumista que tenho, eu devesse me preocupar mais. Mas para alguém que possua uma companheira que seja minimamente frugal, talvez já devesse iniciar o processo de pensar mais em si e menos no patrimônio. Eu, se tivesse essa oportunidade, não pensaria duas vezes.

O que considerar então para a decisão de parar de trabalhar?

Eu não sei se sou a pessoa certa para responder a essa pergunta. Afinal, provavelmente eu irei trabalhar até alcançar minha idade para receber a aposentadoria governamental, embora deseje ter um bom patrimônio para poder fazer coisas além do que uma aposentadoria mensal tradicional poderia me fornecer. Mas vou arriscar alguns palpites.

  1. Acredito que, primeiro, precisamos ter uma consciência do montante de nossos gastos mensais. É claro que quantificar esse número envolve muitas variáveis, mas isso não impede de definirmos um número que será nosso referencial. Sem ele, nunca chegaremos à resposta de quando devemos parar de trabalhar.
  2. Precisamos considerar que esse número não envolve apenas nossos gastos atuais. Precisamos projetar as mudanças para as mudanças que desejamos implementar em nossas vidas no futuro, que podem até ensejar diminuições nos gastos mensais. Se você mora em uma grande cidade como eu e pretende mais tarde morar no interior, o custo de vida é muito mais baixo e isso deveria ser considerado em sua decisão de assumir o comando de sua vida.
  3. As mudanças desses gastos não estão apenas sob nosso domínio. Sabermos que vamos envelhecer e provavelmente, vamos precisar de maiores cuidados médicos, o que envolve maiores gastos futuros em saúde, que hoje estão baixos no orçamento. O aumento precisa estar na conta. Como uma resolução dos 3 primeiros itens, avalie mensalmente as variações de seus gastos mensais e avalie se possui um padrão para o futuro.
  4. Definir uma rentabilidade adequada para nossa carteira de investimentos. Muitas vezes, o “medo” e o excesso de cautela nos faz considerar cenários muito negativos para o futuro. É claro que não podemos fugir dos riscos: eles existem! Mas o que precisamos é não exagerar no pessimismo também. Quem, por exemplo, possui a maior parte de seus rendimentos passivos em fundos imobiliários, por que não considerar um rendimento anual líquido de 4 a 5%, ao menos? O histórico de rentabilidade da maioria desses fundos está acima disso. Já há uma margem de segurança no cálculo.
  5. Fazer cálculos e projeções considerando cenários otimistas/pessimistas por alguns anos. Talvez considerar algum teste de estresse utilizando rentabilidades de ativos em crises passadas, para simular cisnes negros. Isso trará segurança para definir o momento de se parar de trabalhar.

Alguns podem imaginar que parar algumas horas em um final de semana para pensar nisso é trabalho “demais”. Mas e os anos que esses “cálculos” poderia adicionar à sua vida fazendo com que você possa parar de trabalhar anos antes do que você imagina? Será que não compensa?

Eu ainda estou aprendendo tudo isso e esse texto talvez deveria soar mais como uma tentativa de diálogo do que uma “norma”, mas ele reflete muito do que já li sobre o assunto, inclusive em muitos blogs estrangeiros, que gosto muito. O artigo do Frugal mexeu um pouco comigo e, em função dele, senti vontade de dividir o que penso por aqui também.

A partir do final de março de 2020, esse blog passou a ter mais de um autor. Seu nome aparece sempre abaixo do título da postagem. Cuidado para não fazer confusão 🙂
Veja a nova ideia editorial e acesse seus perfis nessa página.

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Danilo
Danilo
8 meses atrás

Ótimo post Bansir. Meus parabéns…
Forte abraço!

Nunes
Nunes
8 meses atrás

Bela reflexão Bansir, tb fico pensativo quando vejo pessoas com características próximas a minha mas em etapa mais avançada agindo de forma contrária a visão mais lógica…Isso me faz pensar se é apenas uma característica específica dele ou se eu que não estou identificando totalmente as variáveis envolvidas e acabo fadado a repetir as mesmas ações no futuro… Como engenheiro sistemático que eu sou, acabo sendo muito pessimista nas minhas avaliações de critérios para alcançar o FIRE…Concordo plenamente que o segredo é o equilíbrio (apesar de na prática ser difícil chegar a ele). A definição de gastos futuros então (especialmente… Leia mais »

Gustavo
Gustavo
8 meses atrás

Andre, acompanho seu blog e também o do Frugal. Acho que o Frugal se perdeu um pouco no meio do caminho quando resolveu “empreender do zero”. Acredito que o ponto chave no caso dele, foi “aquele excesso de confiança” que alguns investidores alcançam e acabam esquecendo do famoso “risco Brasil”… enfim… Assim como o Frugal, já analisei alguns modelos de franquias… Por melhor que elas sejam, é para quem está disposto a vestir a camisa!! Vai tomar seu tempo e seu dinheiro, e até a engrenagem girar sozinha, vai demorar um tempo que as vezes o franqueado não espera. Sem… Leia mais »

André
Admin
Reply to  Gustavo
8 meses atrás

Olá Gustavo! O texto é do Bansir, mas vou comentar sua resposta pois também acompanho o blog do Frugal. Em alguns comentários que já deixei por lá eu comentei com ele se não valeria a pena ir pensando em desacelerar um pouco. Não precisa parar com tudo, mas ao menos, procurar levar uma vida mais normal. Afinal, não dá p dizer que trabalhar mais de 100 horas por semana pode ser considerada uma vida normal, não? Ainda mais com 5M de patrimônio… O lance que pega nessas discussões é a palavra “aposentar-se”. Isso gera uma grande confusão, uma vez que… Leia mais »

Gustavo
Gustavo
Reply to  André
7 meses atrás

Andre, obrigado pelo feedback. Mas acredito que o que acontece quando você se torna FIRE através do mercado financeiro, é que dificilmente encontrará uma atividade que te dê retornos semelhantes com o grau de risco e trabalho… Se tornar FIRE no mercado financeiro ao meu ver, vai te fazer querer cada vez mais investir no MF…. ou então faria o q?? Aí entramos no dilema do Frugal… entendeu??? Acho muito difícil dissociar o FIRE da “aposentadoria ócio”… Ok… já sou FIRE e adoro pets… vou abrir um canil… ( nem preciso elencar o puta trabalho!!) Ok… sai do canil vai… Leia mais »

André
Admin
Reply to  Gustavo
7 meses atrás

Olá Gustavo! Discussão interessante! Não sei se entendi bem sobre retornos após a FIRE. Quando você se declarar livre, vc não precisa dos mesmos retornos. Você troca seu tempo por menores retornos, pois eles já serão suficientes para você. Se vc acompanha a rentabilidade das carteiras do blog, verá que estou diminuindo cada vez mais meu tempo no MF com algumas alternativas, e não investindo “mais”. Ou seriam retornos de satisfação ou do sentimento de “utilidade”? Se você já é FIRE, não precisa de um emprego. Se gosta de PETS, pode ser voluntário em uma instituição que abriga cães de… Leia mais »

Jeferson
Jeferson
8 meses atrás

Reflexão perfeita André !!!!!!! particularmente acredito que a ideia de parar definitivamente tem relação direta como a ocupação atual e sua satisfação……após alguns anos de estrada (no meu caso 4.4) vc começa avaliar o “preço das coisas”, sonhar não tem limites mas tudo tem seu preço claro. A vida frugal muitas vezes é confundida com a ideia de abrir mão de tudo…..vejo q se vc viver abaixo se suas possibilidades e ter a cabeça tranquila já está no caminho. (Na verdade tá bom pra C….rs….) Comecei minha jornada à 12 anos e no começo fui com todo gás guardando o… Leia mais »

André
Admin
Reply to  Jeferson
8 meses atrás

Olá Jeferson!

O texto é de Bansir, que costuma responder mais nos finais de semana. Mas gostaria de comentar que esse “preço das coisas” que você citou, é muito o preço de nossas horas. Será que vale a pena gastarmos tantas horas em um trabalho que não gostamos ou em coisas que não precisamos realmente?

E concordo contigo, como o Gustavo e o Renato aqui dos comentários: o equilíbrio entre as escolhas no presente e futuro é a melhor aposta!

Grande abraço!

Renato C
Renato C
8 meses atrás

Ótimo artigo! Gostei em especial da parte dos “testes de estresse” de patrimônio! Vc apontou algo muito importante: o risco de não se libertar nunca e ficar sempre “preso” na corrida e nunca usufruir, não importando o quanto já se tenha. É claro que estes casos são exceção, mas repare que, depois de décadas de construção de patrimônio, vc conseguir “desligar a chave” e passar a gastar patrimônio (ainda que parcimoniosamente) é algo desafiador! Muitos não conseguem. O ponto é que, quando se tem um alto patrimônio e não se usufrui do mesmo, isto é algo que pode ser tão… Leia mais »

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