Crise do coronavírus: débâcle da economia? Superstição ou entusiasmo?


Alguns pitacos da crise atual da bolsa: coronavírus, petróleo, home-office, etc…

Adicionalmente, veja como estou tentando defender minha carteira de investimentos em meio à montanha-russa financeira.


É verdade que ainda estamos no olho do furacão. Mas, passadas quase três semanas após a volta do Carnaval, já é possível escrever algumas visões e opiniões sobre tudo o que está acontecendo no mercado financeiro.

Esclareço que, apesar da situação sensível, particularmente devido ao alto número de mortes, não vejo nada similar ao fim do mundo. Todas as medidas em torno do vírus, muitas necessárias, outras não, causarão mais sofrimento do que ele em si, talvez a longo prazo. A histeria é propícia para empurrar elefantes brancos em meio ao caos. Isso vale também para o excesso de autoritarismo que cresce por parte de alguns governantes e jornalistas.

Crise na bolsa: a montanha-russa do mercado financeiro em meio ao coronavirus
Crise na bolsa e a montanha-russa do mercado financeiro

Sob o aspecto financeiro, entretanto, é possível que a verdadeira preocupação esteja sendo motivada por motivos errados: já faz algum tempo que tenho escrito que o mundo anda meio estranho e estava, naturalmente, deixando elevar as alocações de dólar e ouro no meu portfólio. Uma crise de crédito se prenuncia, e tornará a situação ainda mais crítica, agravada por um período muito longo com juros nas mínimas históricas.

Bem, veremos o que nos aguarda! Independentemente de qualquer coisa, há algumas ideias de rupturas que poderiam ocorrer em um mundo novo a partir do ano que vem, as quais gostaria de compartilhar com os leitores do blog.

Uma premissa: excesso de superstição ou entusiasmo

Gostaria de analisar a situação sob duas espécies de “falsa religião” nesse texto: a superstição e o entusiasmo. Ambos prejudicam muito a análise que fazemos de uma situação particular. Quando enfrentamos o desconhecido, principalmente sob um véu de crise iminente e desgraças, a superstição aloja-se em nosso modelo mental para nos proteger dos males que virão. Já o entusiamo gera um sentimento de poder no indivíduo que acaba desdenhando da razão, e, com isso, termina por tomar decisões baseadas em seu orgulho e ignorância.

Li essas ideias, certa vez, em um texto de João Pereira Coutinho, que repousava há tempos em uma anotação perdida no Google Keep. Apesar de ter sido usada originalmente em um contexto político, a reflexão cabe muito nesses dias de crise da bolsa e possível queda profunda da economia mundial. Provavelmente, uma nova recessão.

Notamos, no dia a dia, a gravidade do pensamento “entusiástico”. Presumir com arrogância que sabemos de tudo, quais são os pontos de compra e venda da bolsa de valores e arraigar-se a si mesmo a sabedoria divina, por um acerto aqui e ali, é deixar o orgulho exaltar uma profunda ignorância.

Acreditar na superstição, por outro lado, muitas vezes com elementos estabelecidos no passado ou em sua vida particular (que não são emulados na realidade externa), pode inibir tomadas de decisões que deveriam ser estabelecidas através de novas premissas e verdades, perdendo assim, grandes oportunidades.

Aproveitar o melhor entre esses dilemas é a situação em que nós, investidores, nos encontramos em um momento de grave crise como a que ocorre nesse mês de março de 2020 em meio ao coronavírus. Procurar o equilíbrio entre não deixar a superstição instalar-se em nossa alma ou ignorar a razão em função de um entusiasmo soberbo, seria a medida ideal para tomarmos as decisões mais acertadas.

Disrupturas que podem ocorrer no futuro

Baseando-se nessas ideias, sempre com consciência de que podemos estar errados, quais seriam os movimentos que deveriam ser realizados em momentos como esse?

Escrevi no passado sobre alguns momentos de disrupturas que poderiam alterar profundamente o preço de vários papéis da bolsa. Falei sobre seis situações e gostaria de reforçar, no momento, uma delas e outras ideias que me vem à cabeça nesses tempos de coronavírus e pânico econômico mundial.

A multiplicação do home office

Para promover o isolamento das pessoas e evitar a contaminação do COVID-19, muitas empresas estão estabelecendo o trabalho à distância. Para mim isso não é novidade, mas pode ser a primeira experiência de milhões de pessoas, sejam empregados ou patrões.

Não sabemos quanto tempo vai durar o problema. Trump disse que é possível que essa situação perdure até julho, ou seja, 4 meses a partir do momento que escrevo. É verdade que, se novas vacinas entrarem rapidamente no mercado, o período pode ser menor. Mas a questão é: será que esse tempo será suficiente para que a relação de empresas e funcionários sofram um abalo significativo?

Ambos podem perceber que o home office (ou algum esquema de revezamento, como ir uma vez por semana ao trabalho) é plenamente possível. Já entrei em contato com várias ideias que dizem que os funcionários são mais produtivos quando trabalham em casa, seja por menos interrupções desnecessárias como pelo afã de “provar” aos chefes que estão realmente trabalhando.

Por outro lado, empresas poderão notar que menos empregados em seus escritórios resulta em uma economia poderosa. Não só no que é visto facilmente, como energia elétrica e outras utilidades, mas principalmente no potencial de economia de espaços. Uma empresa que implantou, por exemplo, uma ida semanal de cada funcionário através de revezamento, poderia, em tese, estar estabelecida em um espaço com 1/5 do tamanho original. Menos aluguéis, menos investimentos em ativos fixos.

Isso é especialmente preocupante para construtoras e incorporadoras de imóveis de escritórios, bem como para os fundos imobiliários proprietários desses espaços. Isso me preocupa, pois, embora não tenha ações de empresas de construção civil, tenho cerca de 20% do meu portfólio de FIIs baseados no setor.

E no lazer, o que pode ser afetado?

Na área do lazer, vejo algumas mudanças, mas temporárias. Acredito que as cotas dos FIIs de shoppings-centers, por exemplo, possam sofrer por um tempo, mas voltarão ao seu nível normal quando a pandemia for controlada. Diferentemente dos países desenvolvidos, entendo que o brasileiro, carente de segurança nas ruas e ansioso por lazer, ainda frequente por muito tempo os templos de consumo.

Empresas de streaming, por outro lado, podem ser beneficiadas nesse período e conquistar novos clientes. Adicionalmente, pode ocorrer uma alta taxa de retenção, mesmo quando a situação da crise melhorar, uma vez que é relativamente fácil conquistar as pessoas através de boas produções na telinha. Mesmo que elas saiam de suas casas no futuro, a assinatura vai continuar caindo todo mês em seu cartão de crédito.

Por falar nisso, se você quiser experimentar o Prime Video através do Amazon Prime, veja minha opinião sobre o serviço aqui. Talvez a ida frenética aos cinemas, especificamente, seja prejudicada quando mais pessoas descobrirem o conforto de assistir bons programas de sua casa. O que não se compara à exposição a poltronas ruins, ao frio, volume excessivo das salas de cinema e, claro, ao preço proibitivo das pipocas.

Preços do petróleo: um novo normal?

Até o momento que escrevo, ainda não vi uma análise definitiva das intenções da Arábia Saudita em alterar radicalmente os preços do petróleo. Será que há algo disruptivo no ar?

Li uma ideia interessante que está havendo um consenso onde o petróleo, como combustível, está com os dias contados. Os carros elétricos realmente dominarão o mundo dentro de poucos anos. É verdade que o ouro negro ainda poderá ser útil em vários processos industriais, como a fabricação de plásticos. Porém, com a demanda diminuída, seu preço deve se estabilizar em um valor bem abaixo da média dos últimos meses.

Para minha carteira de investimentos isso não é bom. Eu ainda tenho uma quantidade razoável de PETR4 em alocação, fruto da necessidade em estar coberto nas vendas de opções. Como diminuí essas operações, minha ideia era desfazer gradualmente das ações conforme as perspectivas da empresa fossem melhorando. Consegui até vender alguns lotes aos R$ 30 e pouco no final do ano passado, mas agora fiquei com um mico na carteira se os preços se estabilizarem nesse patamar…

Comércio online

Todas as empresas que fazem parte da cadeia de comércio online, com entregas em sua casa, podem ser beneficiadas. Incluem-se empresas de delivery, de aplicativos de comida e com sinergias bem estabelecidas em sua plataforma digital, como a Amazon e Magazine Luiza.

Empresas que ainda possuem seu faturamento muito vinculado à presenças em lojas físicas, como empresas de roupas (principalmente) e calçados (Renner, Hering, etc), devem ser mais afetadas, ao menos temporariamente.

Lembro que em nenhuma das observações até então estou advogando a quebra de algum setor ou empresa. É tudo uma questão relativa. A Renner, por exemplo, não vai quebrar, mas uma queda de vendas, mesmo que temporária, pode afetar o valor justo de suas ações, que sempre foram bem precificadas, e mudar definitivamente a percepção que temos de sua sustentabilidade a longo prazo dos preços que possuía até o ano passado.

Setores que podem ganhar muito com a crise

Quais seriam os setores que se beneficiariam, entretanto, do cenário de massificação do home office e da ideia de fazermos nosso lar o local de consumo de nossos desejos?

Imagine as empresas de utilidades, como energia elétrica, saneamento e telefonia. Há alguma dúvida de que o aumento de consumo gerado por um maior tempo em casa aumentará suas receitas? Talvez não seja à toa que essas empresas são as que menos caíram nessas últimas 3 semanas após o carnaval.

Eu sempre tive um percentual relativamente alto dessas empresas no meu portfólio, em torno de 25%, e, checando nesse momento, após o quinto (estou perdendo a conta) circuit braker em poucos dias, estou me aproximando de 30%, seja pela menor desvalorização como por alguns pequenos aportes que fiz em algumas empresas do setor. Bom, mas isso é assunto para o próximo capítulo…

Porém, mesmo com alguns setores beneficiados, entendo que, se o lockdown não for relaxado rapidamente, todos os efeitos positivos serão anulados e entraremos em tempos muitos difíceis. Veja o que escrevi posteriormente sobre a paralisação da economia e as alternativas para debate.

Movimentos que tenho feito e importância da liquidez

Antes, uma palavra sobre liquidez financeira. Liquidez significa ter uma disponibilidade financeira para aproveitar as oportunidades de investimentos surgidas no mercado. Não é a reserva de emergência ou colchão financeiro: esses são conceitos para você se precaver de despesas extraordinárias.

Para quem acompanha meus textos sobre alocação de ativos, eu sempre fui enfático em afirmar que a reserva de emergência não deve ser considerada na alocação. E que, na alocação, deve-se possuir um pilar em renda fixa, e, nesse, um sub-pilar líquido, investido em títulos pós-fixados. Além disso, sempre advoguei a necessidade de possuir um pilar de câmbio e ouro no portfólio.

Quem seguiu essas ideias, além de obter liquidez financeira, obteve liquidez de tempo: aprendeu como transformar tempo perdido em tempo produtivo para encontrar boas oportunidades no mercado financeiro. Viu como essa alocação pode ser bem utilizada em crises como essas: ela forneceu e está fornecendo recursos para você aproveitar o preço baixo de inúmeras empresas. Em função disso, gosto especialmente da 6ª, entre as 7 ideias que poderão deixar você rico na bolsa de valores.

Para complementar outra ideia sobre alocação de ativos, essa crise tem mostrado a dificuldade das criptomoedas em tornar-se uma alternativa real de valor. Nessas últimas semanas, o bitcoin caiu, em dólar, quase 40%. O Ethereum, cerca de 50%. Assim, eles não estão passando no teste da primeira grande crise que o mundo está enfrentando. Se não é para performar bem nessas horas, o que esperar delas no futuro? Já comentei o que achava desses ativos em um post mais antigo, sobre os investimentos mais comuns do mercado financeiro.

Movimentos das últimas semanas

Inicialmente, vendi um pouco de dólar e ouro na primeira semana de março após a recuperação da queda pós-carnaval para incrementar o caixa. Parei, entretanto, quando o ouro voltou a cair em função da necessidade de liquidez de grandes players. Esse movimento me deixou com certa preocupação que a crise não seria apenas uma marolinha. A partir de então, entrou na história a reserva de oportunidades financeiras.

No momento que escrevo, usei pouco mais de 40% dessa reserva, que estava em um fundo que seguia a Selic. É possível que eu esteja mais conservador do que já fui um dia. Talvez seja em função da idade, que me impele a buscar uma segurança maior em função da condição que construí em minha vida financeira. Talvez seja em função do medo do mercado precificar o preço das ações mais abaixo. Talvez seja pelo susto da queda do ouro e da bagunça dos juros futuros, que me deixa apenas o dólar como opção para um resgate mais rentável entre os demais pilares.

Fiz compras na altura do Ibovespa a 90, 80 e próximo aos 70.000 pontos. Comprei também fundos imobiliários nesses momentos. O total das compras não foi muito alto: aproximadamente 8% do portfólio total. Iniciei o mês de março com 48% alocados em ações e FIIs. Nesse momento, apesar das quedas, estou com cerca de 44%. Se eu não tivesse comprado nada, estaria com cerca de 35%, em função das perdas das cotas. Espero que, com preços médios mais baixos de compras, alavanque mais a carteira quando a alta vier.

Sei que algumas pessoas gostam que eu aponte alguns papéis comprados, embora tenha consciência que isso não diz muito, sem explicar com calma o racional de cada operação, sempre sob perspectiva do balanço geral da carteira de investimentos. Porém, isso já soaria como sugestões de investimentos, algo que não posso, legalmente fazer. Por isso, evito.

De qualquer forma, comento despretensiosamente aqui que comprei RBRP11, ITSA4, HYPE3 e ELET3. Reforcei posições em COGN3, BPAC11, PFIN11, HSML11, ABEV3, RLOG3, ENBR3 e TAEE11. Em CVCB3 não tive coragem rs. É claro que não são sugestões para ninguém. Cada um desses papéis tem uma função específica na minha carteira e possui alocações pré-determinadas. Não devem ser entendidos como sugestões desprendidas de um objetivo maior: a carteira de investimentos é o foco a longo prazo. Para quem não a conhece, acompanhe suas mudanças e rentabilidades mensalmente nesse texto.

E os leitores, como estão lidando com essa montanha-russa do mercado financeiro? Vamos debater os movimentos?

Explore mais o blog pelo menu no topo superior!…
Para me conhecer mais, você ainda pode… ler sobre minha história aqui, ouvir uma entrevista em podcast ou ainda, assistir uma live no Instagram.

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Adriana
2 meses atrás

André, apesar do caos, concordo que esse momento é daqueles em que as pessoas serão convidadas a rever muitas coisas da vida cotidiana. Torço que o momento de recolhimento sirva para repensar gastos, repensar prioridades, repensar padrões de consumo. Em relação ao home office, o qual também estou exercendo desde a semana passada, temo que por estar sendo implantado às pressas, sem quase nenhum preparo prévio, não seja tão eficiente quanto poderia caso fosse instituído com calma e organização. Também espero que apesar de todo impacto econômico e em termos de saúde pública que o corona está trazendo, haja um… Read more »

Vagabundo
2 meses atrás

E ouro foi uma grande decepção. Vou zerar aos poucos e nunca mais invisto nisso.

Vagabundo
2 meses atrás

Ouro foi a grande decepção. Nunca mais ponho meu dinheiro nisso. Vou aos poucos zerar a posição e distribuir entre algum fundo cambial, bolsa e renda fixa. Sobre bolsa, vai cair mais eu acho. Estamos nesse momento em um pequeno repique, e vamos ja ja rumo aos 60k. Boa sorte !

Adriana
Adriana
2 meses atrás

Adoro seu blog André, excelente! creio que esse é o momento de comprar mais ações, aproveitando a baixa e é isso que estou fazendo. Abraço.

Anônimo
Anônimo
2 meses atrás

Boa tarde Andre, estou bem tranquila nesse momento e atenta para comprar mais ações para aproveitar essa baixa, estou propensa a comprar ITAUSA 4, pois banco nunca perde e tenho recebido bons dividendos dessa ação.Abraço, e adoro o seu blog, vc está de parabéns.

Fred
Fred
2 meses atrás

Olá André, acompanho bastante seu blog, apesar de não participar nos comentários. Ótimo texto, Parabéns!
Bom, quanto o balanceamento de carteira, de quando e quando fazes? Com essa volatilidade está mudando muito rapidamente. Nesses períodos de crise, o medo toma conta das decisões.
Obrigado!

Rumo a Independencia
2 meses atrás

Fala, André! Excelente post mostrando a sua visão experiente do cenário! Sendo novo na busca da IF e também no mercado de ações, até que estou me segurando bem! Ainda mais por estar direcionando 60% para a RV nesse momento já que tenho 10/15 anos pela frente! Acredito que o que estamos passando agora pode ser um ponto de inflexão na economia mundial. Realmente, esse é o momento onde o home office se provará. Empresas que estão aderindo atualmente e que nem cultuam esse tipo de trabalho (que é o caso da minha empresa) verão diversos ganhos. No meu caso… Read more »

Leonardo
Leonardo
2 meses atrás

Bom dia, André. Venho acompanhando seu blog faz um tempo e acho muito bom os conteúdos. Tb iniciei essa jornada em busca da IF. Gostaria de lhe perguntar de que forma vc investe em ouro. Através de fundos?

Investidor Inglês
2 meses atrás

Fala André! Caramba, bastante coisa para debater rs (também não é pra menos) Vou ficar no home office e petróleo. Home office no Brasil ainda vai demorar devido a nossa porca infraestrutura. Por mais que tenha melhorado, ainda não temos serviços decentes de internet. E isso é tanto para pessoas físicas como jurídicas. Resumo que home office aqui ficará restrito a grandes e médias empresas que possuem uma boa infra de tecnologia. Sem contar que algumas empresas não liberam por questões de segurança (novamente, falta investimento em tecnologia) Quanto ao petróleo, será que estamos presenciando seu fim? Quanto aos carros… Read more »

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