Comportamentos destrutivos nas finanças


Como algumas crenças que geram comportamentos destrutivos prejudicam nossas finanças e atrapalham a conquista da independência financeira?


Estou lendo atualmente o livro “A força boa do lado obscuro: o aspecto positivo das emoções negativas“, de Todd B. Kashdan, Robert Biswas-Diener e Angela Lobo de Andrade. A mensagem principal do livro é a de que o desconforto que gera sofrimento em nossas vidas não é de todo mal, uma vez que é também, através dele, que nossas resistências são fortalecidas.

Embora ele não aborde as finanças comportamentais diretamente, há alguns trechos onde podemos fazer relações com nossas atitudes nessa área, tanto sob a ótica do consumo, quando da ótica dos investimentos. É sobre esses vínculos que falarei abaixo.

Quais são os comportamentos destrutivos nas finanças pessoais?

As crenças dos comportamentos destrutivos

Segundo seus autores, a American Psychological Association elegeu, com boas razões, o Dr. Albert Ellis como o “segundo psicólogo mais importante no século XX” (à frente de Sigmund Freud e atrás somente de Carl Rogers). Ele foi responsável pela tese de que alguns comportamentos não podem ser controlados facilmente. Como fundador da terapia cognitivo-comportamental, Ellis identificou três crenças disfuncionais importantes na construção direta do sofrimento e dos comportamentos destrutivos:

  1. “Preciso fazer tudo bem e obter a aprovação dos outros para ser aceito.”
  2. “Os outros precisam fazer ‘o que é certo’, se não, não são bons.”
  3. “A vida tem que ser fácil, sem desconforto e inconveniências.”

Segundo o psicólogo, através dessas convicções, as pessoas criam comportamentos destrutivos que dificultam a resolução dos problemas que enfrentamos dia a dia, uma vez que elas não conseguem lidar com o sofrimento que advém dessas crenças e, consequentemente, terminam por sabotar sua felicidade. Vamos pensar em algumas relações dessas crenças com o tema principal desse blog: usar as finanças pessoais para atingirmos a real liberdade na vida!

A ânsia em obter aprovação dos outros

Esse é um tema determinante que nos leva a comportamentos destrutivos, principalmente se pensarmos sob a ótica do consumo. Quantas pessoas que você conhece que precisam dessa aprovação para sentirem-se bem consigo mesmas? Qual o preço que cada uma delas paga por esse comportamento? A eterna escravidão a um salário? O eterno tempo dispendido às preocupações? Até que ponto sua vergonha pode arrasar sua vida financeira futura?

Podemos ver outros comportamentos destrutivos também sob a ótica dos investimentos: quantos de vocês sentem a necessidade de aprovação contando aos seus amigos suas peripécias financeiras? Você divide apenas as positivas ou também as negativas? Ou a intenção é obter mais anuências e menos críticas, visando manter-se em sua zona de conforto?

O ponto aqui é refletir o quanto a aprovação das pessoas determina seus comportamentos na área de finanças pessoais e em seus investimentos. Avaliar sinceramente se a opinião dos outros é fundamental para seu bem-estar, é o primeiro passo para livrar-se dessa crença e reduzir esse sofrimento emocional que sabota sua felicidade.

O julgamento às ações dos outros

Há pessoas que são convictas no que é “certo” e no que é “errado”. De ambos os lados da mesa. É comum vermos pessoas que perguntam simplesmente “qual o melhor investimento no momento” dentro de vários fóruns e comunidades da internet. Nada mais. Essa é toda a informação que fornecem. E é comum vir alguém e responder na lata: MGLU3! Ambos veem apenas uma solução para a pergunta formulada e normalmente, entram em conflitos internos quando apresentamos as relativizações do problema.

Se para você isso é algo óbvio, não o é para a maioria. Eu já recebi perguntas desse tipo. E, quando peço mais detalhes sobre horizonte de investimentos, outras alocações que possui, objetivos, etc, sinto um desânimo do interlocutor. Ele queria só a resposta “certa” e pronto. Não queria fazer nenhuma avaliação.

Acreditar que existem respostas fáceis (“certas”) para problemas complexos é uma extensão lógica do vício de conforto físico e leva a graves comportamentos destrutivos. Mesmo que as coisas sejam complicadas, tentamos simplificar o máximo possível para que não soframos com a dúvida. Ou não nos desgastemos a enfrentar o problema. Na área financeira, esse desejo de resolver as coisas em uma só tacada gera altas probabilidades de decepções futuras.

A vida tem que ser fácil sempre?

Aqui no blog eu já escrevi vários textos advogando a simplificação de nossa vida, principalmente com relação a uma maior disponibilização de tempo, gerando mais liberdade para cada um de nós. Isso, porém, é muito diferente de acreditar que a vida precisa ser fácil. Afinal, para se chegar a uma condição de independência e liberdade financeira, a maioria das pessoas pode passar por alguns sofrimentos momentâneos na vida antes de alcançar a estabilidade futura.

Quando temos um objetivo futuro, é natural sacrificar algo no presente para podermos atingi-lo. Isso significa que a vida não tem que ser fácil sempre. As sensações e sentimentos dolorosos, além de oferecer um aprendizado de que somos capazes de suportar o desconforto psicológico, podem ser essenciais para criarmos aquela “casca” benigna que nos auxilia a termos estabilidade emocional para atingir nossas metas mais íntimas.

Sob a ótica do consumo, é o equivalente a adiar a compra de algo que queremos (ou evitá-la, ou então, alterar para algo mais econômico). No momento, isso gera dor. O presente é, de fato, o local mais provável de analisar os resultados de nossas decisões de consumo. Mas não é o local mais propício. Precisamos equilibrar os resultados que obtemos em ambos períodos para não cair, novamente, nos comportamentos destrutivos.

Sob a ótica dos investimentos, podemos pensar na dificuldade em aprender como gerenciar nossa carteira de investimentos. Causa desconforto essa responsabilidade pessoal? Talvez. Mas o quanto ela retornará para você no futuro? O processo de começar a poupar, definir seu perfil financeiro, investir e gerenciar sua carteira de investimentos não precisa ser complicado. Veja aqui como começar em 12 passos.

Gerenciando essas emoções

Um ponto crucial para finalizar essas ideias e relações é de que “a maioria de nossos problemas não advém dos pensamentos e sentimentos indesejáveis, como Ellis sugeriu, mas da relutância em abordá-los”, segundo os autores do livro. O ser humano não quer, na maioria das vezes, enfrentar a situação e procurar caminhos para facilitar a transição para uma etapa superior de conhecimento.

Os autores sugerem que os momentos difíceis de nossas vidas são essenciais para nos transformar em pessoas mais firmes e preparadas psicologicamente. Eu diria mais, como já comentado em outros textos do blog: em pessoas com responsabilidade e individualidade para enfrentarem, com protagonismo, os desafios de sua vida, inclusive no campo financeiro. Quanto de sapo Elon Musk já teve que engolir para chegar onde chegou?

Ter consciência de que o desconforto emocional pode nos trazer benefícios futuros, caso ele seja abordado corretamente, poderemos colher os resultados positivos de estados cognitivos singulares e expandir nossos horizontes para encontrar as melhores soluções. Agindo com serenidade e de forma pró-ativa, estaremos evitando os comportamentos destrutivos e pavimentando nosso avanço à independência financeira.

Explore mais o blog pelo menu no topo superior!…
Para me conhecer mais, você ainda pode… ler sobre minha história aqui, ouvir uma entrevista em podcast ou ainda, assistir uma live no Instagram.

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Rodrigo
Rodrigo
3 meses atrás

Lendo esse texto lembrei de uma frase que tenho sempre em mente. “Explanations exist; they have existed for all time; there is always a well-known solution to every human problem — neat, plausible, and wrong.” Mencken

Bansir
Reply to  André
2 meses atrás

André, você confundiu os textos. Esse é seu mesmo haha!

Bansir
Reply to  Rodrigo
2 meses atrás

É Rodrigo… Esse lance de procurar respostas simples para coisas complicadas é dose… As pessoas se iludem que tudo pode ser resolvido facilmente, e nem sempre é assim. Tem coisas e coisas. Simplificar a vida é bom, mas com balanço das expectativas.

Valeu!

Guilherme
3 meses atrás

Ótimo texto, André! Não sabia sobre quem era esse Albert Ellis, mas concordo com ele quanto às 3 crenças disfuncionais.
 
Vou, inclusive, pesquisar mais a respeito.
 
Abraços!

O Engenheiro Investidor
3 meses atrás

Estou longe de ter ganhado a vida financeiramente falando, mas sempre penso que também se fosse tão fácil talvez o dia da conquista não seja tão gostosa como imagino que será!

Simplicidade e Harmonia
3 meses atrás

André,
 
Postei um comentário aqui, porém como postei um link, não sei se foi parar na pasta spam…
 
Boa semana,

Simplicidade e Harmonia
3 meses atrás

André,   As duas primeiras crenças são tão comuns no dia a dia…   Em relação a terceira, acho que a maior parte das pessoas já entendeu que isso é uma utopia, pois a vida sempre tem situações muitos desconfortáveis – para alguns em menor quantidade do que para outros, mas todos passam por sofrimentos. Isso inclusive me lembrou o post que fiz sobre os níveis de dificuldade da vida comparando-os aos games (easy, medium, hard e extreme). Vou deixar o link no meu nome.   “a maioria de nossos problemas não advém dos pensamentos e sentimentos indesejáveis, como Ellis… Leia mais »

Simplicidade e Harmonia
Reply to  André
2 meses atrás

André,

Interessante esse filtro, pois com tanto spam, melhor assim do que ter que ficar apagando comentários indesejados. Até por que são poucos os comentários verdadeiros que caem na pasta spam, não são?

Não precisava se desculpar, imagina! Quando eu ver que ocorreu isso novamente, te aviso aqui.

Boa semana!

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