Nossos instintos e educação financeira

Penso que é da natureza do ser humano o desejo de fazer coisas para o prazer imediato, mesmo que elas não sejam boas a longo prazo. Alguns levam essa natureza ao extremo. Outros, apoiando-se em vias mais racionais, buscam equilibrar mais a balança. Nesse caso, há um desvio em relação aos nossos instintos transmitidos pelos nossos ancestrais.

Na pré-história, o natural entre os caçadores-coletores era alimentar-se sempre que possível, sem dar muito atenção ao amanhã. Afinal, a comida poderia não aparecer. Guardar, somente se fosse em local seguro, pois outras espécies (ou tribos rivais) poderiam levar o alimento. Apesar de fazer parte da natureza de nossos antepassados, já protagonizávamos uma grande evolução dentre os animais. Afinal, o ser humano ainda é o único animal que pensa para o futuro, e essa característica nos fez distintos de todos os demais.

Instintos e educação financeira

Não guardar dinheiro pode ter um componente instintivo?

Será que a dificuldade das pessoas guardarem dinheiro para o futuro passa por essa luta contra nossos instintos mais animais? Será que nossos genes ainda são tão influenciados por essa programação histórica (não sou biólogo, então, desculpo-me antecipadamente de algum termo mal colocado)? Por que é tão complicado lutar contra esses instintos e quebrar maus hábitos?

Algumas pessoas dizem que é só uma questão de força de vontade. Outras, que é apenas voltar-se à razão. Mesmo essas podem sofrer decaídas quando julgarem que, dados tantos esforços, merecem uma “recompensa”. E aí, entram novamente na ditadura do “eu mereço” e voltam a consumir coisas desnecessárias.

Enfim, como estou pensando em orientar minha família para mudar esses hábitos e mantê-los distantes desses instintos primitivos? Algumas perguntas para fazer, refletir e responder…

1) O que você deseja para sua vida?

Você precisa saber qual seu objetivo no futuro. Se não tem, precisa pensar em algo. Viver ao sabor do vento ou de seus instintos não funciona. O risco em viver na dependência dos pais ou do seu empregador é alto. Objetive algo que torne você livre, suportado pela independência financeira.

Para isso, precisa se conhecer. O que faz você gastar demais? Essas atitudes ocorrem quando está só ou com familiares ou amigos? Quais amigos? Há algum componente de sentir-se aceito, de provar algo a alguém ou de acreditar que os gastos lhe recompensem, de algum modo?

Todos esses traços de personalidade precisam ser refletidos, pois se existe uma tendência clara a responder negativamente a certos eventos, temos uma resposta mais eficaz para se adotar uma solução. Sei que você queria uma “dica” fácil, mas cada pessoa é diferente e não podemos generalizar.

Um ponto interessante no meu caso, como pai, é perceber em que ponto cada filho e esposa está nesse processo de descoberta. Às vezes, o processo é difícil, pois nem mesmo eles podem querer parar para pensar em nada. Aqui exige-se uma atitude mais firme dos pais. Em outros casos, a sucessão de eventos é positiva, e você pode ser apenas um guia para aparar as arestas que surgirem. Novamente, cada caso é um caso.

2) Dificulte o comportamento prejudicial

A partir do momento que conhecemos nossa situação específica, a ideia é tornar as coisas mais difíceis para que os hábitos negativos não prosperem. Como já comentei aqui em outro texto, por exemplo, eu tive que fazer uma transferência automática da minha conta corrente para meus investimentos no dia em que recebo o salário. Isso faz com que eu possua menos dinheiro até o final do mês e me força a não gastar com bobagens. Penso que é um exemplo fantástico de educação financeira.

Outros pontos que leio em outros blog é atrasar alguns dias qualquer decisão de consumo: muitas vezes é fogo de palha e acabamos desistindo do negócio que veio à tona somente pelo nosso lado instintivo. Ter apenas um cartão de crédito e controlá-lo regularmente é outra alternativa, embore eu não goste da ideia de não tê-lo e usar somente dinheiro. Acredito que temos que nos educar também, não?

Uma técnica que acredito ser muito eficaz: conte aos outros sua meta. Nessa situação, você usará positivamente a herança genética humana e nossos instintos de não querer parecer “fraco” ou perdedor (loser, para os americanos), e fará o possível para atingi-la e contar aos seus amigos e familiares.

Todas essas técnicas são válidas para dificultar o comportamento prejudicial que não permite alcançar suas metas. Aproveite e encontre brechas em sua rotina para fornecer os gatilhos que farão com que você cumpra seus objetivos. Por exemplo, a hora do Luciano Huck é a hora que tenho um pouco de tranquilidade em casa para checar minhas metas financeiras e cuidar dos textos que escrevo por aqui. É verdade que dias desses tive que trocar pela hora do Esporte Espetacular, mas ainda tá valendo…

3) Torne os bons comportamentos, hábitos!

Para termos resultado com algum comportamento a longo prazo, ele precisa se transformar em hábito. Li há algum tempo o livro “O Poder do Hábito” e o autor, além de falar sobre os gatilhos que mencionei acima, nos conta que não é tão simples incorporar um novo hábito na nossa rotina. Justamente por isso, é tão importante dar atenção nesse ponto.

Uma das formas que reforçam positivamente a incorporação de bons hábitos é dar um feedbak positivo a cada conquista. Estou praticando isso com minha família. Mesmo que pareça algo tão básico, já é um passo adiante quando partimos do “quase zero”. Isso ajuda a mantê-los no caminho certo, principalmente quando os resultados previstos ainda estão longe de dar as caras.

Na educação financeira, isso é fundamental, pois, apesar dos juros compostos serem uma força poderosa, eles são tímidos no início da jornada em busca da independência financeira, e pode desincentivar quem ainda não entendeu todo desse poder. Talvez no começo devamos focar nos valores economizados, ao invés do aumento do patrimônio do cofrinho virtual.

Ser exemplo também é fundamental para criar novos hábitos aos meus filhos. De que adianta eu falar A e fazer B? O exemplo dos pais é fundamental para que nossas crianças possam ter a liberdade que merecem no futuro. É por isso que trabalho aqui em duas frentes: filhos e esposa. Ela também é uma referência importante a eles. Isso também parece que tem um pouco de nossos instintos, não?

Alguns exemplos citados mostram que não é apenas uma questão de abortarmos nossa herança genética e instintos. O ser humano evoluiu justamente porque eles no trouxeram muitos mais benefícios do que malefícios. Parte deles não podem ser totalmente desprezados. Entretanto, o mundo mudou barbaramente nos últimos 200 anos: não há evolução natural que faça frente à todas as transformações. Nesse caso, cabe a todos nós selecionarmos o que é útil e o que não é para atingirmos nossas metas. E, novamente, com liberdade financeira, fica tudo mais fácil.

A partir do final de março, esse blog passou a ter mais de um autor. Seu nome aparece sempre abaixo do título da postagem. Cuidado para não confundi-los 🙂
Veja a nova ideia editorial e acesse seus perfis nessa página.

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Simplicidade e Harmonia
5 meses atrás

Bansir,
 
Os hábitos são muito mais fortes do que podemos imaginar. Por isso, é necessário muita atenção, pois mudar um hábito errado é muito mais trabalhoso e leva muito mais tempo do que podemos imaginar. Mesmo com disciplina, não é fácil.
 
A melhor coisa a fazermos é prestar atenção e procurar praticar apenas hábitos que nos ajudem a alcançar nossos objetivos e não o contrário.
 
Abraços,

André
Admin
Reply to  Simplicidade e Harmonia
5 meses atrás

E a mindfulness ajuda muito isso, não, Rosana? 🙂
 
Abraços!

Blog Menos do que Ganha
5 meses atrás

Olá, VL!   Seu post lembra muito algumas passagens do livro Sapiens. Você já o leu?   Uma coisa que muita gente da finansfera fala é sobre os juros compostos trabalhando pra si, mesmo quando se fala em investimento na bolsa. Isso não se aplica à bolsa, certo?   Sobre família, sou casado há 4 anos e tenho uma bebê de 1 ano, então meu esforço é só com a esposa. Hoje em dia posso dizer que ela tem a mesma consciência financeira que eu. Somos uma família de classe média alta, mas compramos pijaminhas usados para nossa filha. No… Leia mais »

André
Admin
Reply to  Blog Menos do que Ganha
5 meses atrás

Olá Menos do que Ganha!   André aqui, mas o post foi escrito pelo Bansir, ok? Geralmente ele responde de final de semana.   Eu já li o livro. Tem algo a ver sim.   Quando falamos em bolsa, pensamos mais em valorização real das empresas e dividendos, e não juros compostos. Porém, a ideia é mais ou menos a mesma: lucros adicionais tornam a empresa mais resiliente e com caixa para novos investimentos, aumentando mais ainda seu valor. Só seria incorreto na ideia de uma empresa que só distribui dividendos sem reinvestimentos.   Aqui em casa também não temos… Leia mais »

Aposente Cedo
5 meses atrás

Muito obrigado bom o post!
Todas as técnicas do item 2 são úteis e executo transferência automática para Previdencias privadas e uso meu único cartão para concentrar todos os gastos possíveis (basicamente só não o uso para pagar aluguel e condomínio, todo o resto vai no cartão). Assim fica muito mais fácil controlar o orçamento.

Abraço

André
Admin
Reply to  Aposente Cedo
4 meses atrás

Olá Aposente-se Cedo!

Venho aqui me desculpar em nome do blog pelo atraso. Alguns comentários foram diretamente para a lixeira aqui do painel do WordPress, acredito por uma configuração restrita do spam. Vou acertar…

Obrigado pelo comentário e Bansir será avisado!

Abraço!

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