Após um longo silêncio aqui no blog, uma decisão disruptiva: o retorno ao trabalho formal após 16 anos de Independência Financeira. Descubra como o “vazio da conquista” e mudanças motivacionais mostram como a liberdade financeira é uma ferramenta para novos desafios e como o movimento FIRE não é sobre o fim do trabalho, mas sobre a soberania da escolha.
1. O Som do Silêncio e o Vazio da Conquista
Quem acompanha esse blog há mais tempo sabe que este espaço nunca foi sobre dicas rápidas de enriquecimento, fórmulas mágicas de “fique rico em 10 dias” ou ostentação patrimonial. Ele sempre enfatizou, em última análise, o uso consciente do tempo — o nosso único ativo verdadeiramente não renovável.
Muitos provavelmente perceberam que, nos últimos dois anos, o blog praticamente limitou-se a atualizações frias de rentabilidade. Parecia que eu havia finalmente sucumbido ao ócio total da aposentadoria precoce, aquele estágio final e idílico do movimento FIRE onde a única preocupação é o fechamento mensal dos ativos de sua carteira de investimentos.

Mas o silêncio tinha uma razão: eu estava vivendo algo novo e ainda não havia encontrado um momento adequado para escrever sobre ele. Quem leu o meu livro, vai concordar que um dos pensamentos mais frequentes no texto é que a vida é curta demais para nos especializarmos em apenas uma única coisa ou nos prendermos a um rótulo definitivo. A jornada para a Independência Financeira (IF) foi apenas um ato de uma peça mais complexa.
Eu já abandonei um bom emprego e salário na iniciativa privada para buscar novos desafios em outra faculdade; já fui o viajante sem destino e, posteriormente, fui pai em tempo integral, motivado e sempre procurando dar o meu melhor. A IF não é um estado de inércia; é um organismo vivo que exige novas formas de expressão conforme as fases da vida mudam.
Nesses últimos anos, minha relação com o patrimônio amadureceu para um estágio de “cruzeiro”. No meu artigo sobre a TNRP (Taxa Real de Retirada Líquida), expliquei que o sucesso da liberdade não depende de acumular dígitos infinitos, mas de quão baixa e segura é a taxa que você precisa retirar do seu patrimônio para manter (e planejar) seu estilo de vida futuro. Chegou-se a um ponto em que a rentabilidade real necessária para minhas carteiras de investimentos superava com folga o padrão histórico, seja no Brasil ou exterior.
O jogo matemático parecia “vencido” caso não houvesse graves cisnes negros pela frente. Independentemente desses cisnes negros, onde a previsão e planejamento não encontram muito sentido, perdi consideravelmente o desafio intelectual de encontrar a alocação perfeita ou a adrenalina de navegar em mercados turbulentos para garantir as rentabilidades; a gestão tornou-se um processo de manutenção burocrática e previsível. Para uma mente acostumada a resolver problemas, o excesso de facilidade pode ser tão paralisante quanto o excesso de dificuldade.
2. A Escola do Filho e a Inquietude da Meia-Idade
Os leitores do meu livro possivelmente lembram que ele terminou com a expectativa do nascimento do meu filho, um marco que exigiu presença constante e que me deu as maiores alegrias da jornada. Durante os primeiros anos, minha missão foi clara, nobre e preenchida. Durante o trabalho da mãe, eu me dedicava a cuidar, dar o suporte necessário e ser o companheiro de descobertas.
Contudo, aos seus três anos, surgiu a necessidade da socialização escolar, não motivada por cansaço dos pais ou falta de tempo, mas por uma carência de interação social: a vizinhança, nossa rede familiar e de amigos próximos simplesmente não tinha crianças da mesma idade para o convívio diário necessário ao desenvolvimento socioemocional.
Quando ele cruzou o portão da escola para conviver com seus pares, ele ganhou um mundo novo. E eu, por consequência, ganhei algo que, se não fosse bem administrado, tornar-se-ia um fardo: tempo livre absoluto em um horário comercial que antes era preenchido por fraldas, brincadeiras e descobertas. A liberdade total é uma tela em branco que pode gerar angústia se você não tiver tinta e propósito para preenchê-la.

Voltar aos voluntariados era uma ideia, mas nesse momento eu havia retornado à minha cidade de infância para ajudar a cuidar de meu pai. Ou seja, seria um processo que, para quem já participou dessa jornada, possui um certo grau de complexidade: variáveis como distância do local, sentido, propósito e motivação nem sempre se alinham. Foi nesse cenário de “vazio da conquista” que uma semente inesperada foi plantada pela família: “Por que não estuda para um concurso público?”.
No início, a ideia parecia um contrassenso. Eu, que sempre valorizei a autonomia, o protagonismo pessoal e a agilidade da iniciativa privada, inserido no “Leviatã“? Mas, refletindo sob a ótica da minha própria filosofia de vida, percebi que essa peça do tabuleiro poderia estar faltando. Eu já conhecia o mundo corporativo e a liberdade do trabalho independente; o setor público era a última fronteira institucional que eu ainda não havia explorado por dentro.
Com mais de 50 anos, com a mente ativa e a saúde plena, o ócio não me parecia um prêmio, mas um desperdício de potencial intelectual. Havia também um elemento de desafio: o mercado privado é cruel com o etarismo e o concurso público, por outro lado, é, a princípio (excluindo possíveis falcatruas), um juiz meritocrático que ignora seus cabelos brancos e foca apenas na sua capacidade técnica. Claro que não foi uma decisão óbvia, nem confortável, e por algumas semanas me perguntei se não estava apenas fugindo do silêncio.
3. A Nova Alocação de Capital Humano
A decisão de voltar ao mercado foi, assim, um misto de racionalidade temperada com um desafio pessoal. Eu não estava apenas buscando um “emprego” para pagar boletos (embora claro que isso seja importante – afinal, sempre podemos usufruir mais da vida e ter mais conforto). Não se tratava de estabilidade, status ou carreira tradicional. O que me interessava era o novo desafio e poder entender como funciona, por dentro, uma das últimas grandes engrenagens institucionais que ainda não havia vivido.
Na gestão de investimentos, falamos muito sobre alocação de ativos, mas raramente falamos sobre a alocação de capital humano. Em conversas com a família, ouvi muito que meu capital humano ainda era alto, e deixá-lo “em caixa” (sem uso) parecia um erro de alocação. Estava na hora de usar o luxo da seletividade que a Independência Financeira me deu durante todos esses anos.
Tive a sorte de, logo após tomar essa decisão, ver o edital de um dos concursos mais concorridos e bem pagos do Executivo Federal — aquele que todos chamam de “concurso fim”. Confesso que, se não fosse algo desse nível, que oferecesse uma remuneração condizente com a qual estava acostumado e uma carreira sólida, eu dificilmente manteria a mesma motivação e não sei se escreveria esse texto algum dia.
Estudei com uma “ambição serena” durante oito meses. A IF foi minha maior aliada: eu não estudava com o desespero de quem precisa do salário para sobreviver, mas com a precisão de um investidor alocando seu ativo mais precioso em um projeto de alto retorno esperado. Essa tranquilidade financeira me permitiu focar no aprendizado sem a pressão externa que esmaga tantos candidatos.
Ao passar, encontrei uma condição que superava muito minhas expectativas iniciais, quando a ideia do concurso surgiu. O salário do primeiro ano já se aproximava do valor que eu ganhava ao final da minha carreira na iniciativa privada, reajustado pelo IPCA. No segundo ano, com parte do bônus de eficiência, ele já o superaria. Claro que não estou considerando possíveis promoções que poderiam ocorrer nesses 16 anos de mundo corporativo, porém eu sabia que o meio de troca para recebê-las seria minha própria vida.
Além disso, a vantagem da previdência complementar no executivo federal, com contrapartida em dobro pelo órgão, provou ser uma alocação financeira e um “seguro social” tentador. Assim, a Independência Financeira não elimina o valor do dinheiro — ela redefine o valor do tempo. Justamente por isso, qualquer troca precisa ser justa.
Mas a maior recompensa foi o modelo de trabalho. O cargo proporciona um regime híbrido, alternando entre o trabalho de campo e o home office. Para quem passou anos gerindo o próprio tempo e mantendo um blog, esse modelo soa mais natural, uma vez que adquiri uma estrutura mental plenamente consolidada para otimizar resultados consistentes para a carreira sem sacrificar o tempo livre. Continuarei sendo o pai que leva e busca o filho na escola e na natação, mas agora, com a mente ocupada pelos desafios inerentes ao novo cargo, e não apenas pela cotação dos ativos da carteira de investimentos.
4. Aposentadoria: O Protagonismo além da Planilha
Ao refletir sobre esse movimento disruptivo, é impossível não conectar esta nova fase com as cinco formas de planejar a liberdade que discuti anteriormente. Muitas pessoas planejam a aposentadoria como uma fuga de algo que odeiam, em vez de um movimento em direção a algo que as desafia. Elas buscam o “não-trabalho” como um fim em si mesmo, sem perceber que o ser humano precisa de senso de utilidade.
Nesses 16 anos eu vivi algo que podemos chamar de aposentadoria dinâmica, onde eu tinha o meu “trabalho” de gerenciamento de portfólio, mas com um grande tempo livre à disposição. Talvez agora eu possa nomeá-la de uma aposentadoria temporária, uma vez que estou de volta ao mercado de trabalho. No movimento FIRE, o “RE” (Retire Early) é frequentemente mal interpretado como um convite ao sedentarismo existencial. Na verdade, a aposentadoria precoce deveria ser vista como o momento em que você se aposenta da necessidade de trabalhar por dinheiro, para começar a trabalhar por escolha.
Assim, a ida ao setor público após 16 anos de trabalho independente não significa uma mudança nos planos que eu tinha para meu futuro em função de variáveis e expectativas relacionadas à independência financeira. Pelo contrário, continuo exercendo o maior triunfo que um patrimônio pode proporcionar: o poder de escolher a sua labuta com base em valores, não em carência.
O conceito de “Viagem Lenta” sempre foi sobre a jornada, sobre o prazer de observar a paisagem e mudar de rumo quando o caminho se torna monótono. Às vezes a jornada pede uma rede na varanda; outras, pede o rigor de uma nova carreira e a possibilidade de ser um agente transformador dentro de uma instituição de Estado. Minha carteira de investimentos continua lá, rodando com sua TNRP segura, garantindo que eu possa pedir demissão amanhã se a ética ou o prazer no trabalho desaparecerem.
Mas, por enquanto, é uma atitude que ratifica que a liberdade não é a ausência de obrigações, mas a soberania absoluta de escolher a quais obrigações vale a pena dedicar a sua energia. Para quem é financeiramente independente, o trabalho deixa de ser uma sentença e passa a ser uma das formas mais elevadas de protagonismo pessoal. A viagem continua, e este novo capítulo é a prova de que o destino final é sempre um novo começo.
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Impressionante. Primeiro quero agradecer por você ser um pioneiro, se hoje é difícil ter alguém que alcançou a FIRE para servir de luz condutora, de bom exemplo que nosso país carece tanto, imagina há 16 anos.
É como dizem: “Se pude enxergar longe é porque subi no ombro de gigantes”.
Parabéns, obrigado e abraços.