Vale a pena investir no Brasil?


Para decidirmos se vale a pena investir no Brasil devemos abandonar “achismos” e utilizar dados que corroborem, irrefutavelmente, nossa opinião.
Com base em alguns números, veja o que considerar para responder adequadamente a dúvida se compensa enviar seu dinheiro ao exterior.


Ouvi anteontem o podcast do SrIF365, onde ele comenta sobre aluguel, compra de imóveis e como ele se arrependeu de investir no Brasil o dinheiro que recebia enquanto trabalhava no exterior.

Focando no segundo assunto, o SrIF365 conta como ele, mesmo ganhando em dólares, investiu grande parte de seu dinheiro por aqui e, com a derrocada recente do real, como perdeu patrimônio escolhendo essa opção, mostrando-se terrivelmente arrependido.

Desvalorização do Ibovespa contra o dólar?

Eu entendo-o perfeitamente, ainda mais quando consideramos que ele possui uma vontade muito grande de morar no exterior. Ele mesmo concorda que a melhor escolha seria investir os dólares de seu salário já diretamente em uma conta fora do país, usufruindo assim da rentabilidade de uma moeda forte há tempos.

Porém, não concordo quando ele diz que investir no Brasil é prejuízo na certa. No podcast, ele usou o argumento de que o Ibovespa, em dólar, caiu de mais de 44.000 pontos em dólar em 2008 para 21.500 atualmente. E, por isso, não valia a pena investir no Brasil, sugerindo a todos que, assim que possível, retirassem o dinheiro do país.

E é sobre a análise desse argumento que gostaria de comentar alguns pontos. Posteriormente, faço um comentário se eu, pessoalmente, acredito que vale a pena investir no Brasil ou não.

A falácia da bolsa em dólar

Recentemente, Roberto Attuch Jr. escreveu que pensar o Ibovespa em dólar não vai nos trazer algo relevante. Essa relação não diz se as empresas estão caras ou baratas ou se nosso padrão de vida mudou. Significa apenas que nossa moeda está depreciada em relação às outras moedas do mercado externo.

Sem dúvida, isso gera problemas para quem pensa em viajar para fora ou morar definitivamente no exterior. Mas não é algo intrínseco ao desempenho do mercado de ações ou de outros papéis. É essa diferença que precisa estar clara.

Assim, quando o SrIF365 diz que não vale a pena investir no Brasil porque, no período que usou para sua análise, a bolsa caiu pela metade de seu valor em dólar, é algo meio irrelevante para quem continua morando por aqui.

É verdade que o custo de vida é influenciado, de uma forma ou de outra, pela cotação do dólar e, eventualmente, acabamos pagando mais por coisas que são importadas ou possuem parte de seus insumos dolarizados. Mas isso acaba se revertendo na inflação, que é a medida correta para avaliarmos a queda de nosso padrão de vida. Não o dólar.

Vale a pena investir no Brasil? 1

Muitos desses preços, no entanto acabam se ajustando. Um exemplo é o preço dos carros. Lembro que comprei meu Civic 2008/2009 por 61mil, com algum desconto na tabela de preços. Esse valor, a dólares de 2008, resulta em cerca de 38.000 dólares. Hoje, um Civic zero sai a menos de 20.000 dólares com a desvalorização do real.

Se fizermos a mesma conta para vários produtos, percebemos que há uma compensação da disparidade das cotações da moeda em coisas que consumimos no mercado interno. Assim, dizer que o Ibovespa caiu pela metade em dólares não quer dizer que nossa riqueza caiu pela metade se continuarmos em nosso país. Será um problema apenas se a pessoa pensava em usar o dinheiro para morar no exterior, situação em que concordo com o desabafo do SrIF.

Escolha do período correto para análise

Não sei exatamente por que o SrIF365 iniciou a análise da derrocada do Ibovespa em dólares exatamente quando ele atingiu sua máxima (veja gráfico do Ibovespa dolarizado retirado do site do Clube dos Poupadores a seguir).

Gráfico do Ibovespa dolarizado - dolar x ibov - histórico

Escolher pontos específicos de comparação (datas) e não um período mais extenso pode nos levar a conclusões com alto grau de vieses. Reparem que, em longo prazo, o Ibovespa tem se valorizado em dólares, valorizando-se em 400 vezes seu valor em 55 anos.

Outros dados que podem ser consultados são do próprio site da Economática, que analisou 50 de história do Ibovespa até 2017 (quando o Ibovespa estava praticamente no mesmo patamar em dólares atual, tornando a análise viável para esse texto), e uma das conclusões foi que:

Nos 50 anos de história do Ibovespa a valorização em dólares é de 22.638% ou 11,74% em média por ano. No mesmo período o Dow Jones Index valorizou 2.637% ou 6,85% em média por ano.

Quem possui quase 50 anos, sabe o que esse país viveu em sua economia nessas últimas décadas, o que faz com que consideremos esses números extremamente positivos. Se pudermos ser melhores do que fomos nos anos da hiperinflação e no período Dilma, com certeza alcançaremos uma valorização mais expressiva do que até então.

Talvez, então, a ideia de investir no Brasil, mesmo pensando em dólares, não seja tão ruim assim. Quem, ao menos não aceitar essa proposição com base nos índices históricos, está pensando com o fígado, não com a cabeça.

Ainda, quem insiste que a cotação do dólar está nas alturas e entende que “ele” deve ser o parâmetro para avaliar nosso custo de vida, precisa avaliar qual a cotação real da moeda deflacionada pelo IPCA. Veja o gráfico abaixo:

Dólar deflacionado pelo IPCA
Cotação do dólar deflacionado pela inflação (IPCA)

E esse último número caiu até hoje, fevereiro de 2021, uma vez que a cotação do dólar se manteve constante em relação a abril do ano passado e a inflação aumentou. Se analisarmos um gráfico da inflação pelo IPCA contra a valorização do dólar, vemos claramente que a primeira foi maior do que a segunda.

Ou seja, há a necessidade de coerência. Se é o dólar a melhor variável para definir o custo de vida, nosso custo de vida nos últimos 25 anos subiu bem menos do que a inflação acumulada aponta. Se concordarmos que ao IPCA é o melhor indicador, não estamos na máxima da cotação do dólar.

A alocação de ativos e o gerenciamento de risco

Quem me acompanha aqui no blog sabe que, historicamente, a parcela de ativos com mais presença em meu portfólio sempre foi a renda fixa. Ela chegou a mais de 60% com os altos valores de juros que o Brasil praticou em um passado recente. Ficar fora da renda fixa nesses períodos seria um considerável custo de oportunidade perdido.

Para mantermo-nos no período da análise do SrIF365, R$100,00 investidos na Selic em junho de 2008 transformaram-se em R$309,00 em junho de 2020. Se resolvêssemos investir em títulos longos (IMAB), eles multiplicaram-se por 5 no mesmo período (bem mais do que a desvalorização do real em relação ao dólar). Ou seja, se investíssemos na renda fixa longa, teríamos um ganho real em dólar de quase 2 vezes e meia, mesmo nesse período mais crítico de desvalorização do real.

Se considerarmos o IFIX, dado que o SrIF365 possui uma grande parte de seu patrimônio em fundos imobiliários, ele valorizou-se do início de 2011 (quando foi criado) até o final de 2020, quase 3 vezes. Ou seja, um patrimônio com uma boa alocação em ativos reais não perderia tanto assim em função da grande valorização do dólar.

Além disso, sempre enfatizo a importância do pilar do câmbio no gerenciamento de riscos e rebalanceamentos de uma carteira de investimentos. Sempre possuí cerca de 10 a 15% do meu patrimônio em dólar e ouro dolarizado, que foram muito úteis para operar vendas com a grande desvalorização do real e compras de ativos depreciados na crise, como as ações.

Isso fez com que o preço médio das ações do Ibovespa diminuísse, o que colabora enormemente na valorização nos períodos posteriores.

Seu conhecimento e tempo

Por fim, precisamos analisar se possuímos tempo e conhecimento para investir diretamente no exterior, principalmente quando fazemos a escolha de ações (stock-picking). Em outros momentos, comentei que nunca havia colocado meu dinheiro fora do Brasil justamente porque não queria inaugurar uma nova frente que consumiria minha rotina. Nos últimos anos, meu objetivo é ampliar meu tempo livre, e não acrescentar a ele mais trabalho.

Caso você não deseje inaugurar essa etapa em sua vida, mas ainda deseja diversificar seus ativos diretamente no mercado desenvolvido, considere, ao menos, utilizar os ETFs, programando uma gestão visando o gerenciamento de risco através dos rebalanceamentos.

Lembre-se, porém, que você não escapará de utilizar boa parte do seu tempo ao menos nos estudos iniciais da escolha do ETF adequado. Lá fora, as opções são muitas, desde entre os fundos quanto aos países que escolherá (há grande diferenças tributárias entre eles).

Se pensa em começar por aí, sugiro dois bons sites da Finansfera: “Como Investir no Exterior” e “O Investidor Internacional“. E, para incentivar o blog, considere usar a Remessa Online (geralmente, a mais barata – veja no banner acima) com o cupom de desconto viagemlenta para enviar seu dinheiro para o exterior.

Apenas para constar, informo que desde o final do ano retrasado tenho investido no exterior de forma indireta e passiva, através de fundos de investimentos e ETFs como o SPXI11, todos gerenciados, entretanto, de dentro do Brasil. Não tenho conta no exterior, justamente pelo tempo que me drenaria essa nova frente de trabalho.

Finalizando e concluindo…

Para avaliar se vale a pena investir no Brasil, precisamos avaliar janelas maiores de rentabilidades, independentemente dos ativos. Pelo gráfico ampliado apresentado anteriormente e mesmo sendo levemente otimista que o Brasil se sairá melhor nos próximos anos, podemos chegar a uma conclusão oposta ao SrIF.

Antes de tudo, esteja consciente que é fundamental definir seus objetivos para responder à questão. Se você possui uma decisão firme e inabalável de sair do Brasil, é claro que você deve começar a colocar o dinheiro diretamente no exterior o quanto antes. Caso contrário, isso não é fundamental.

E isso pensando ainda em curto prazo, pois, apesar de ter mostrado que, a longo prazo nossa bolsa se valorize em dólares, não sabemos como serão os próximos 10 anos. Talvez, se eu pensar em criar um patrimônio para meu filho, que nasceu agora, morar no exterior, seja mais racional investir no Brasil. A história nos mostra isso.

É verdade que você precisa, no entanto, ter algum grau de confiança no país. Não que ele seja o melhor país do mundo ou que encontrará o pleno caminho para se tornar uma nação desenvolvida (algo que já perdi a fé), mas que ele seja minimamente melhor do que foi no passado. Grandes gestores de ações brasileiras, como Rogério Xavier (SPX) e Luis Stuhlberger (Verde), estão otimistas com o Brasil em 2021.

Lembro ainda que construí meu portfólio e me tornei independente financeiramente apenas investindo no Brasil pelos últimos 20 anos, com todos os problemas que o país passou e ainda possui. Não posso ignorar esse fato na análise. As rentabilidades da carteira de investimentos, reveladas em um anexo de meu livro, foram boas e consistentes nesses anos, acima dos benchmarks que realmente interessam.

É interessante o ponto de quanto o Brasil será melhor ou pior do que o mundo desenvolvido (relativamente em um período histórico, deixemos claro) nos próximos anos. Recentemente, tenho perdido mais a fé no mundo ocidental do que propriamente no Brasil. Tenho grande receio de suas dívidas milionárias criadas para sustentar uma pesada burocracia e o status da sociedade os inúmeros benefícios assistenciais.

Como tenho comentado recentemente, o mundo está muito estranho, e tenho um pouco de medo do que pode vir à frente. Eu já não consigo me imaginar morando a longo prazo na Europa, em função do ônus da estrutura da social-democracia e desestabilização política em função das políticas migratórias.

Nos EUA, quem poderá prever o que ocorrerá no governo eleito ou em um próximo governo com Kamala Harris, seja como influenciadora ou como chefe maior? Afinal, o Biden está com quase 80 anos e parece que não disputará a próxima eleição…

E, por fim, em uma comparação de dados históricos, não esqueça de pensar nos diversos pilares de ativos em sua carteira de investimentos e como eles podem impulsionar sua rentabilidade geral. Não tome decisões em apenas um índice. Pense na carteira de investimentos como um todo.

Entre 2007 e 2008, provavelmente era hora de vender ativos de renda variável, em função da grande valorização que eles vinham recebendo. Como ser adivinho? Não precisa acertar topos e fundos. A própria planilha de uma alocação de ativos mostraria o aumento percentual desses ativos, indicando sua venda.

Assim, se alguém perdeu metade de seu valor em dólares no Brasil entre 2008 e 2020, o problema não foi devido ter deixado o dinheiro no Brasil, mas sim ao azar de estar em um dos piores períodos da história para o Ibovespa dolarizado, à má escolha dos ativos em uma carteira mais diversificada e à falta de um rebalanceamento de posições efetivo para surfar as ondas do mercado financeiro.

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