Alugar ou comprar um imóvel? O que é melhor? (2020)


Entre alugar e comprar um imóvel, o que vale mais a pena? Será que a resposta para essa decisão precisa ser mesmo um “depende”?
Veja por que acredito que pagar aluguel é “quase” sempre a melhor alternativa, seja financeiramente, mas também pela paz de espírito.


A dúvida entre comprar e alugar um imóvel tem sido alvo de constantes debates entre as famílias. Nesse texto, conto minha experiência no mercado imobiliário e como essa decisão não é apenas financeira, mas envolve, além de sentimentos, muitos preconceitos.

Ao invés de simples “achismos”, ele é embasado em dados reais e fatos bem claros que envolvem nosso cotidiano. Inicio com a avaliação financeira entre pagar aluguel ou comprar o imóvel e, posteriormente, comento sobre preconceitos e bloqueios emocionais.

Veja qual será a melhor decisão para você. Boa leitura!

Alugar ou comprar um imóvel: o que é melhor?

Por que perdemos dinheiro comprando, ao invés de alugar um imóvel?

Se você já está plenamente convencido de que no Brasil, quase sempre se perde dinheiro comprando um imóvel, pode avançar para o próximo tópico sobre os preconceitos e bloqueios emocionais. Nesse tópico, mostro, com dados históricos, porque não vale a pena financeiramente comprar um imóvel visando sua moradia ou receber dinheiro de aluguel.

A chave para chegar a essa conclusão é comparar as situações de compra e aluguel de um imóvel com base no custo de oportunidade. Ou seja, comprando um imóvel, você renuncia investir o seu dinheiro na renda fixa ou em fundos imobiliários. É verdade que a primeira vem pagando bem menos do que o histórico dos últimos anos, mas os fundos podem tomar facilmente seu lugar, mantendo seu dinheiro no ramo imobiliário.

Na comparação entre alugar ou comprar um imóvel, em geral são criados dois entraves mentais na maioria das pessoas:

“É melhor pagar um financiamento, pois nesse caso, estou pagando algo que é meu. Gastar dinheiro com aluguel é jogar dinheiro fora”

“Não importa se eu pago um pouco mais agora, pois o imóvel vai valorizar no futuro”.

Vamos conversar rapidamente sobre cada um deles.

Não vale a pena: seja pagando o imóvel à vista ou financiado, você perde dinheiro

Acredito que o leitor saiba que comprar algo à vista é mais vantajoso do que pagar a prazo, evitando o pagamento de juros. Porém, a realidade do Brasil impede que a maior parte das pessoas estejam aptas a usar essa forma de pagamento. Falarei então brevemente sobre o financiamento de imóveis para depois comentar o pagamento à vista.

Comprar o imóvel com financiamento

Vários blogs já fizeram simulações de financiamento no site da CEF para tais avaliações. E todos eles chegaram na mesma conclusão: você perde dinheiro no financiamento. Muito dinheiro. Não vou entrar em detalhes financeiros aqui, pois não vou ficar repetindo o que se encontra facilmente na web. Para aprofundamento desse ponto, veja esse artigo.

Apesar do autor ter usado números conservadores (alugar o imóvel por um valor mensal de 0,5%), eu nunca cheguei a pagar tal percentual (atualmente, pago 0,3%). Mesmo sendo exigente em relação à opção de alugar um imóvel, ele chegou à conclusão de que pagamos o dobro do valor com um financiamento.

Ou seja, você poderia ter dois imóveis ao invés de um se pagasse à vista. Isso é bom para você ou para o banco que financia?

Um parêntese: as poucas exceções desse caso geral, onde a prestação já começa com um valor similar ao aluguel, envolvem privilégios sociais. Mas o texto é debatermos as condições gerais da opção entre comprar ou alugar um imóvel, certo? Não estamos tratando de exceções.

Comprar o imóvel à vista

Bom, será que é um bom negócio então comprar o imóvel à vista?

Não é difícil encontrar imóveis com o aluguel sendo oferecido pelo valor de 0,3% de seu valor de venda. É pouco menos do que rendimento mensal de um título seguro e conservador de longo prazo do Tesouro Direto em maio de 2020. E considere que estamos no piso histórico de juros, ou seja, uma situação muito mais desfavorável, teoricamente, para a opção do aluguel.

Abaixo são alguns dos imóveis que encontrei na web com ambos valores. Considere que, quanto maior o imóvel, maior a vantagem do aluguel e vice-versa. De qualquer forma, variações existem e há que se entrar em contato com o proprietário para avaliar possíveis descontos, tanto na venda como no aluguel e recalcular os valores.

Os juros recebidos em uma aplicação de renda fixa de longo prazo e o aluguel pago são equivalentes: até o imposto de renda pago é o mesmo. Historicamente, os juros foram constantemente mais altos, o que fez com que o aluguel fosse muito mais vantajoso. Hoje, com os juros baixos, há um equilíbrio. Avalie sempre o contexto econômico atual e compare sempre!

Considere ainda alguns diferenciais: na compra do imóvel você paga impostos adicionais, como ITBI, escritura pública e cartório, que variam de estado para estado. Elas somam em torno de 5% do valor do imóvel, o que dá mais de um ano de aluguel.

Ou então, é um valor suficiente para uma viagem de um ano ao redor do mundo, hein? 🙂 Se o apartamento for novo, acresça colocação de pisos, armários, boxes e outros acabamentos necessários.

Ainda parece um bom negócio?

Veja que escolhi para comparação o título de renda fixa mais conservador de longo prazo do mercado. Se pensássemos em investir em fundos imobiliários, conseguimos valores médios de rendimentos isentos de impostos em torno de 0,5% por mês, tornando tal investimento muito mais vantajoso. E investindo no mesmo mercado imobiliário!

Tais investimentos permitiriam pagar o aluguel do imóvel acima e ainda desfrutar de cerca de 0,2% do valor do imóvel por mês. Livres. Assim, seja financiando ou pagando à vista, você perde dinheiro se for comprar um imóvel no Brasil, ao invés de alugá-lo. É matemática simples.

Vamos conversar agora de outro mito: a valorização do imóvel.

Comprar um imóvel pela sua suposta valorização é um mito

Se você pensa que os imóveis sempre valorizam com o tempo, você não está sozinho. Isso é um senso comum, principalmente no Brasil, mas deveras equivocado. Os imóveis não se valorizam mais do que boas aplicações em renda fixa.

Caso você esteja refletindo sobre o valor que comprou seu imóvel e o quanto ele vale hoje, lembre-se de três pontos:

  • O valor que você “pensa” que vale seu imóvel é o valor pelo qual você realmente o venderia? Isso é um autoengano muito comum;
  • A inflação deve ser sempre considerada nesses cálculos. Ou seja, a valorização deve ser deflacionada;
  • A comparação deve ser feita com base em uma taxa padrão do mercado. Se no tempo em que está com imóvel, conseguiríamos investir esse dinheiro a, digamos, 3% de taxas anuais reais, esse custo de oportunidade deve ser computado.

Vamos então aos fatos? Os dados são apresentados em três etapas pela falta de uma fonte que agregasse ambos períodos.

O gráfico a seguir mostra a valorização dos imóveis no Brasil pelo índice FIPE/ZAP. Repare que de jun/79 a jun/15, nesses 36 anos os imóveis valorizaram-se acima da inflação em apenas 53,38%. Ou apenas 0,12% ao mês. Esses dados foram desinflacionados pelo site https://rexperts.com.br a partir de uma planilha disponibilizada para download no próprio site da FIPE.

Índice FipeZap corrigido pelo IPCA
Retirado de http://rexperts.com.br/valorizacao-dos-imoveis-brasil-fipe-zap/

Através do próprio site FIPEZAP, é possível checar, através de um gráfico interativo o índice de preços dos imóveis dos 52 meses subsequentes, de jul/15 a nov/19. A diferença entre ambos os preços é um valor negativo de 1%. Assim, nesses mais de 4 anos recentes, os preços dos imóveis caíram em número absoluto.

Valor dos imóveis nos últimos anos
Valor dos imóveis nos últimos anos frente à inflação

A valorização dos imóveis nos últimos 41 anos, foi apenas cerca de 0,56% ao ano.

Como a inflação desse período mais recente ficou em 22%, temos uma desvalorização real média dos imóveis nesse período de quase ¼ do valor. Trazendo para a perspectiva histórica, o índice de 153,38 cairia para 118,44 e levaria a um aumento real dos imóveis, em quase 41 anos, de apenas 18,44%, ou uma valorização de pouco mais de 0,04% ao mês ou 0,56% ao ano. Uma valorização que seria facilmente ultrapassada, por larga margem, em um investimento seguro de títulos pós-fixados.

Mas o leitor agora pode me perguntar: e se eu comprasse o imóvel em 2007 e o vendesse em 2013, no boom de preços?

Lembram-se das exceções? Acertar exatamente o fundo e o topo dos preços dos imóveis nos últimos anos a conclusão de que imóvel NÃO é um bom negócio. Exceções não são bons pilares para decidir investimentos. Mas ainda que você fique animado com elas, acrescento que mesmo nesse caso citado, existia uma chance de ganhar ainda mais na renda fixa com um título de longo prazo, como pode ser visto no gráfico abaixo:

Índice FIPEZAP x NTNB Tesouro IPCA
Índice FIPEZAP x NTNB Tesouro IPCA

O título do Tesouro Direto obteve um rendimento ainda maior do que a valorização bruta de imóveis no período de alta imobiliária, entre 2008 e 2012.

Quando fazemos análises comparativas, incluindo o custo de oportunidade, torna-se mais clara a desvantagem de comprar imóveis frente ao aluguel.

Novamente podemos lembrar aqui os custos da transferência do imóvel, capitalizados por décadas na renda fixa… Além disso, se o imóvel era novo, existiram gastos com pisos, armários, etc… Bem, melhor não fazer a conta… Fica mais fácil (e nos enche de orgulho) dizer que tivemos lucro com o imóvel 🙂

Um imóvel pode desvalorizar muito? Uma pulga atrás da orelha.

Normalmente, quando ouvimos falar de desvalorização de imóveis, relacionamos a fatos como problemas de violência na vizinhança, caos econômicos em cidades, perigos que tornaram-se mais próximos, seja de segurança ou ambientais, além, é claro, de crises econômicas.

Mas será que os preços dos imóveis podem cair abruptamente?

Lembram-se dos telefones fixos, quando eram declarados até no Imposto de Renda anual, devido aos seus altos valores? Hoje, com o advento da tecnologia sem fio, são peças de museu, sem valor.

Um campo que está crescendo muito ultimamente é a impressão em 3D. Muitos entendidos proclamam que é a uma das novas fronteiras da ciência. E já chegamos ao ponto de construir casas através das impressoras 3D. Já existem vários exemplos reais dessa nova tecnologia, como essa pequena casa em Amsterdã e essa bem maior no Reino Unido. Há até vilas inteiras sendo construídas com casas “impressas” no México.

Não sei o que vai acontecer no futuro, mas é possível que uma nova revolução esteja chegando por aí. Claro que transições como essas não são fáceis. Há muitos interesses em jogo. Mas eu consideraria para repensar melhor meus investimentos. Ou seja, comprar um imóvel hoje, só se fosse uma grande pechincha!

Uma exceção onde a compra de um imóvel pode ser positiva

Espero que o leitor que já comprou seu imóvel não fique ressentido com esses números e comentários. A ciência dos fatos é importante, e nem sempre ela deve gerar arrependimentos, mas sim sabedoria para os próximos passos.

Eu também cometi o ato falho de comprar um imóvel no passado. Financiado, ainda por cima… Foi em 1994. Um desastre. Eu era dono de um saldo devedor que aumentava todo mês, apesar de pagar a prestação todo santo dia 10. Vendi sem poder cobrir nem 20% de todas as parcelas que paguei de financiamento. Mas ficou a lição.

Entretanto, voltei a comprar outro imóvel em 2008. Como explicar?

Simples: eu usei a única condição onde comprar um imóvel é vantajosa financeiramente: com o dinheiro do FGTS. Lembra dele? É aquele dinheiro que o governo surrupia mensalmente de todo assalariado. Na verdade grande parte é de fato roubada, pois você não recebe de volta o mesmo montante. Seu saldo é rentabilizado abaixo da inflação, ano a ano. Ou seja, prejuízo na certa.

Em 2008 eu tinha saldo suficiente no FGTS para comprar um imóvel. E o fiz para tirá-lo da agonia de ver meu dinheiro diminuindo mês a mês. Assim, temos uma exceção aqui. Se você for usar todo o dinheiro do FGTS na compra de um imóvel, pode valer a pena.

Mesmo que hoje, com juros bem mais baixos a diferença financeira é pequena, você confiaria a custódia de seu dinheiro ao governo por muito tempo? Eu não… tire de lá assim que puder…

Bloqueios emocionais na compra ou aluguel do imóvel

Deixemos agora a parte financeira de lado. Vamos sair da racionalidade e entrar nas paixões. Através delas, o sonho da casa própria constrói modelos mentais difíceis de serem extirpados de nossa mente. Modelos que insistem em corroborar nossas certezas, mesmo quando a realidade aponta para o outro lado. Vamos analisar alguns desses padrões.

1) Alugar é jogar dinheiro fora. Financiando, pago por algo que é meu

Esse é um padrão clássico. Vamos pensar: qual a diferença básica em alugar e pagar uma prestação? No aluguel, pagamos pelo usufruto de um imóvel. Na prestação do financiamento, pagamos (mais) pelos juros de um montante em dinheiro que nos foi emprestado.

Ora, qual a vantagem em dizer que estou pagando mais pelos juros de um empréstimo do que pagando menos pelo usufruto de um imóvel?

Pois é, leitor, esses é um dos mistérios do senso comum. E será que o imóvel é mesmo seu? Vamos continuar…

2) A casa própria dá sensação de segurança

Lembre-se que no financiamento você pagará muito caro por algo que não é seu. Sim, o imóvel, até que você o quite, não é seu. O imóvel é do banco. Atrase os pagamentos e espere para ver o que ocorre. Onde está a sensação de segurança e tranquilidade?

No aluguel também pagamos por algo que não é nosso. Mas a diferença é que ao alugar – e não comprar um imóvel, pagamos bem menos. E podemos guardar a diferença para momentos de crise, tornando-nos mais capitalizados e em melhor situação em cenários mais dramáticos.

A casa própria pode ser a solução para as pessoas para a realização de um sonho, para a satisfação na sensação de pertencimento de um lugar, para a identificação com algo que lhe é próprio. Mas nada disso é racional. Deixemos para a psicologia e sociologia tais debates.

3) Morar de aluguel é para solteiros. Uma família precisa possuir um imóvel

Não entendo bem esse padrão de pensamento.

Você casa e compra um imóvel. Daí sua família aumenta e vai para outro maior. Uma, duas ou três trocas, pois além do número de filhos aumentar, eles crescem e necessitam de outros benefícios. E depois seus filhos vão embora e a casa enorme fica para o solitário casal.

Não parece óbvio o excesso de gastos que uma família média gasta em cada mudança desse tipo? Suas despesas seriam muito menores (e seu patrimônio seria muito maior) se tivessem escolhido alugar os imóveis ao invés de comprá-los.

Ficaria também muito mais fácil corrigir possíveis escolhas erradas do imóvel ou do bairro. Mas isso deixo para comentar no último item referente à paz e tranquilidade. Sigamos!

4) Quero uma casa própria para deixá-la “do meu jeito”

Existem nesse momento que escrevo, 1.037.916 anúncios de aluguel no país em apenas um site imobiliário. Será que não existe um imóvel “do seu jeito”? Será que precisamos ser tão específicos?

Sim, concordo que uma coisa e outra gostaríamos que fosse diferente. Mas estamos falando de algo maior. De derrubar paredes e construir. Afinal, coisas menores podemos fazer também em um imóvel alugado. Não há impedimento para isso, como algumas pessoas fazer crer. Hoje há várias soluções para mudar o visual de sua casa sem muito esforço.

Mas a inquietação do ser humano faz com que sejamos tentados a mudar sempre. A não gostar do que temos. A querer sempre mais, mesmo não avaliando a real necessidade das mudanças. Já vi em várias ocasiões quebra-quebras e arrependimentos. Depois, mais quebra-quebras. Vontade não satisfeita, mais quebra-quebras.

Não seria uma pseudo-escravidão do desejo? Bom, esse foi um assunto que escrevi quando relacionei a vergonha, o hedonismo e a independência financeira

De qualquer forma, tem gente que gosta. Cada um com seu cada um. Eu acho mais fácil trocar de casa e, fazendo do aluguel o seu modo de vida, tudo se torna mais fácil e barato.

5) Eu moro com mais conforto em meu imóvel, pois cuido muito bem dele

O cuidado que temos com nossas posses, de fato, é maior do que com posses de terceiros. Mas tudo deve ser bem ponderado. Se você faz um financiamento de um imóvel, por exemplo, pretende ficar por muito tempo na casa. Talvez até mais de 30 anos.

Você vai gastar muito com ele. Não, não estou falando dos investimentos iniciais, como piso, armários e outros puxadinhos. Estou falando de conserto de telhado, quebrar paredes por causa de infiltrações, revisão de fiação elétrica, entupimentos de tubulações, etc, etc. Meus pais têm uma casa de 38 anos e eu sei muito bem o que é isso.

E lembre-se que, por mais que você cuide de seu imóvel, ele envelhece. Quando você terminar o seu financiamento, você terá um imóvel… velho.

E morando de aluguel, caso haja algum problema estrutural, quem paga é o proprietário. E você pode mudar-se para um imóvel novo sempre que desejar.

6) Eu quero paz e tranquilidade. Então, vou de casa própria

Mais um exercício. Você comprou sua sonhada casa própria. Mas depois de um tempo…

  1. Um presídio (ou uma marmoraria) foi construído ao seu lado;
  2. O bairro começou a ficar menos seguro;
  3. Vizinhos indesejados (por vários motivos) compraram o imóvel adjacente;
  4. Você mudou de emprego, bem longe de onde mora;
  5. Você se cansou da cidade e quer mudar para o interior (ou capital);
  6. Você verifica que existem problemas estruturais no seu imóvel que demandarão uma ampla (e cara) reforma;
  7. Percebe que o condomínio, mal gerido, contribui para que seu imóvel esteja desvalorizando, apesar das taxas sempre crescentes;
  8. Você resolve fazer uma longa viagem. Consequentemente, vai ter dor de cabeça em deixar sua casa só. Estresse e preocupação;
  9. Por qualquer motivo acima, você resolve alugar sua casa própria. Novamente, estresse e preocupação.

A lista é longa, mas acredito que a ideia foi transmitida. Embora você sempre possa vender o seu imóvel e comprar outro posteriormente, o processo é muito mais demorado e custoso. No inquilinato, você muda e entrega o imóvel com muito mais facilidade. E não vai ter dor de cabeça com inquilinos, caso decida pelo último item.

Onde então temos mais paz e tranquilidade?

Aproveito a deixa desse tópico para comentar abaixo a minha vida imobiliária. E mostrar por que, além do plano financeiro, eu prefiro morar de aluguel do que ter um imóvel próprio. Eu quero é justamente, paz e tranquilidade.

Minha vida imobiliária nos últimos 25 anos

Exceto entre os anos de 1994 e 1999 e de 2008 a 2010, sempre fui inquilino, sem maiores aborrecimentos. Acredito que a chance de um locador pedir o imóvel ao locatário (possivelmente o único fator que vejo a alternativa como negativa) é muito remota, caso ele seja um bom cliente. A possibilidade existe, mas se ocorrer, é fácil resolver a situação.

No ano 2000 saí de São Paulo e fui morar no Rio de Janeiro até o ano 2002. Morava em um apartamento de dois quartos, onde fiz amizade com a proprietária e nos tornamos colegas. No ano de 2002 a 2003, fui morar na Alemanha, enviado a um curso pela empresa. Novamente, fiquei em um apartamento alugado, totalmente mobiliado, com uma excelente proprietária, que ajudou com instalações de telefone e internet e na troca da máquina de lavar roupa quando esta deu defeito.

Voltando ao Brasil, fiquei em Recife por alguns meses, alugando um flat de frente para a praia. Foi a melhor vista que já tive da janela do meu quarto. Mesmo deitado na cama dava para ver o mar. Tinha arrumadeira, lavanderia e café da manhã disponível. Tudo isso muito mais barato do que a prestação de um imóvel equivalente.

Flat em Recife: aluguel muito mais barato do que a compra
O “meu” quarto de melhor visão da minha vida

Posteriormente, fui morar no interior do Maranhão, no final de 2004. Aluguei por um preço muito baixo um sobrado com 230m2 construídos, piscina e sauna, no centro da cidade. Resolvi tudo em menos de dois dias. Imagine se eu cismasse que queria uma casa própria?

Após quase dois anos, a empresa convocou-me para um projeto onde eu ficaria visitando várias unidades do grupo, sem possuir moradia fixa. A empresa bancaria os hotéis e eu ficaria de lá para cá, acumulando milhagens no cartão vermelho da TAM. Fiquei mais de um ano nessa toada. É claro, como eu tinha alugado, ficou muito fácil entregar a casa e sair tranquilo nessa zoeira…

Voltei em seguida para o Maranhão, mas defini que seria por pouco tempo. Preferi ficar agora em um pequeno apartamento recém-construído, também perto do centro. Acertei um contrato de apenas seis meses, mas acabei ficando por quase um ano. O aluguel nos permite tais liberdades. O proprietário era um velhinho meio ranzinza, mas muito cordial.

Em 2008 voltei para Itu, em São Paulo e usei parte do meu FGTS para comprar um apartamento na cidade. Mas sabia que iria vendê-lo logo, pois já estava planejando pedir demissão da empresa e voltar para Campinas.

Em 2010, me demiti. Como havia uma pessoa interessada em alugar meu apartamento, fiz um contrato de um ano e fui morar em Campinas, alugando um apartamento ao lado da avenida mais bonita da cidade (popularmente conhecida como Norte-Sul).

Com mais tempo, estudei com calma a melhor forma de vender o imóvel de Itu e isso ocorreu pouco mais de um ano depois, em meados de 2011. Investi tudo em fundos imobiliários, ao invés de comprar outro imóvel. Afinal, além de querer paz e tranquilidade eu imaginava que a bolha imobiliária ia estourar logo logo…

Abaixo mostro a valorização de um dos fundos imobiliários que comprei – o FCFL11. Esse gráfico mostra apenas a valorização do ativo. Não mostra os rendimentos mensais de aluguéis, que já pagou o equivalente ao que investi nos papéis em 2011.

Gráfico histórico fundo imobiliário FCFL11
Gráfico histórico do fundo imobiliário FCFL11

Em 2012 bateu vontade de viajar. Uma viagem um pouco mais longa do que eu normalmente fazia. Como inquilino, tudo ficou mais fácil. Devolvi o apartamento e toda a grana que eu gastava em aluguel, condomínio, energia elétrica, TV a cabo, internet, faxineira, etc foi para o financiamento da viagem. E adivinha? Fiquei 205 dias fora, viajando pela Europa e Ásia, e gastei menos do que gastaria se ficasse no Brasil. Sim, você leu direito.

Se eu estivesse pagando prestação de imóvel financiado isso seria impossível. Não posso pedir para “parar” de pagar. Além disso, o apartamento ficaria lá, sem gerar lucro algum, demandando pagamentos de condomínio e as tarifas básicas de utilidades. Sem contar o pó acumulado… Caso tenha interesse em ver as postagens dessa viagem, o índice está aqui.

Quando voltei, em 2013, aluguei um flat próximo à Unicamp. Novinho, fui o primeiro morador. Mas não gostei muito dele em função de espaço e vizinhos, mas ele me convinha pela localização por motivos pessoais. Assim que deixou de convir, mudei para o apartamento que estou até hoje, também de aluguel (já há 5 anos e contrato renovado).

Novamente, escolhi um apartamento novíssimo, onde sou o primeiro morador. Estou satisfeitíssimo no local atual. Pago o equivalente a 0,3% do valor do apartamento por mês. E o rendimento médio real nos últimos dois anos do meu patrimônio ultrapassa facilmente o dobro desse valor. Mas se um dia resolver sair, o leitor já sabe: é tudo muito fácil. Nada me prende aqui.

Conclusão e palavras finais

É esse tipo de liberdade que me dá paz e tranquilidade. Essa liberdade de não estar preso a algo, mesmo sendo a sua tão sonhada e querida casa própria, não pode ser medida. É um conceito que pode ser extrapolado de diversas maneiras, inclusive pelo minimalismo.

Liberdade para morar onde quiser quando bater uma vontade de sentir novos ares.

Liberdade de entregar as chaves e sair pelo mundo, sem preocupações de ter deixado algo para trás.

Liberdade de livrar-se de problemas estruturais, vizinhos chatos, ruídos incômodos que não estavam lá quando você se mudou.

Liberdade de não ter a carga emocional de abandonar sua casa própria, que você não quer mais mas sacrificou-se tanto para conseguir.

Reconheço que essa forma de vida é compatível com pessoas que sabem cuidar bem da sua vida financeira. Prestações de casa própria podem ser a única forma de algumas pessoas pouparem algum dinheiro. Mas elas precisam estar cientes que perdem muito apostando nessa alternativa.

Será que não é mais interessante adquirir a sabedoria financeira e fazer as coisas do melhor jeito para elas? Conselho: comece fazendo um bom orçamento. Leia o essencial do orçamento e fluxo de caixa e baixe uma planilha para seu controle.

Opiniões são muito bem vindas nos comentários!

P.S.1: A inspiração desse texto veio após a leitura de um artigo do blog Geração 65, que não existe mais. Após lê-lo, resolvi colocar minha experiência e ideias à disposição de outras pessoas.

P.S.2: Um leitor perguntou posteriormente como agi com a mobília nas mudanças, De fato, esqueci de comentar esse fato no artigo, mas se tiver interesse, veja minha resposta na seção de comentários abaixo.

P.S.3: Li nesse final de semana, o livro Tijolos, escrito por um colega da finansfera. Achei muito bem conciso e com sacadas muito interessantes sobre os assuntos do mercado imobiliário que conversamos nesse texto. Vale a pena adquiri-lo!

Explore mais o blog pelo menu no topo superior!…
Para me conhecer mais, você ainda pode… ler sobre minha história aqui, ouvir uma entrevista em podcast ou ainda, assistir uma live no Instagram.

E, se gostou do texto e do blog, por que não ajudar a divulgá-lo em suas redes sociais através dos botões de compartilhamento?

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cleber
cleber
11 dias atrás

Eu já fui fã do aluguel, hoje não mais! Primeiro depende de cada pessoa sempre, existem “n” variáveis. Talvez para pessoas com renda superior a 3K no Brasil beleza, mas para o restante ter para onde voltar ao fim de um dia de trabalho é muito mais paz que uma bela paisagem na janela. Bom os pontos que considero essenciais ao se morar de aluguel; ser próximo ao trabalho que você possa gastar entre 10 e 15 min a pé(já aproveita como exercicio fisico) ter infraestrutura disponivel (mercados, farmacias, hospital) custar menos que a média(esse negócio de comparar percentual com… Leia mais »

Danilo
Danilo
12 dias atrás

Excelente texto André. Também já comprei um imóvel uma vez. Na época achava que isso era uma prioridade. Hoje moro de aluguel e não pretendo comprar outro nem tão cedo. É muito boa a sensação de liberdade morando de aluguel nos proporciona. Engraçado às vezes é ver a cara de alguns amigos e familiares, quando me perguntam, falo que ainda moro de aluguel rsrs…Vários já me deram a “super dica” de financiar um imóvel, pois vou pagar o que é meu porque pagar aluguel é dinheiro perdido rsrs… Enfim, infelizmente ainda o que predomina na sociedade é essa mentalidade que… Leia mais »

Daniel
Daniel
13 dias atrás

Valor de imóvel pronto não é a realidade de muitos brasileiros. Há tempos espero um estudo comparativo desses usando valor de imóveis avaliando o preço de construção (compra de terreno + projeto + materiais + serviços).

Engenheiro Investidor
Engenheiro Investidor
Reply to  André
11 dias atrás

Depende muito dos seus contatos, como engenheiro civil posso afirmar que o gasto final (compra de terreno + projeto + materiais + serviços) pode ser bem menor que o valor de venda. Porém, tocar uma obra e enxugar custos é algo que demanda tempo e experiência.

AA40
14 dias atrás

Mais um excelente texto VL. Depois disso não resta mais nada a dizer com relação ao tema, cobriu completamente sobre os mais diversos ângulos. Um Abcs

Anônimo
Anônimo
14 dias atrás

Excelente texto! Foi além do óbvio Alugar x Financiar e trouxe para discussão o Alugar x Comprar, o que é bem mais complexo e involve não só finanças como também outras áreas da vida. Acho que o texto está bem completo, então vou tentar deixar meu ponto de vista sobre o assunto aqui: Para mim a palavra chave é (pra variar) diversificação. Geralmente um imóvel representa grande parte do patrimônio de uma pessoa, o que é muito perigoso, pois os riscos de uma grande perda são enormes. Seria o equivalente a ter 50% dos seus investimentos em um FII mono… Leia mais »

Daniel
Daniel
Reply to  Anônimo
13 dias atrás

Faltou a comparação ALUGAR x CONSTRUIR.

Aprendiz
Aprendiz
4 meses atrás

Dentre as cidades brasileiras em que já morou de qual gostou mais e de qual menos? Pra qual voltaria hoje se possível, considerando estar solteiro? Abraço e valeu pelo texto!

Aprendiz
Aprendiz
Reply to  André
4 meses atrás

Concordo completamente contigo, inclusive fiz um estudo detalhado comparando cidades a partir de diversos índices importantes e o estado com mais cidades na lista é SP. Te enviarei por e-mail e, quem sabe, você não faz um artigo aqui sobre o assunto? E sim, eu considero ficar no Brasil melhor pelo mesmo motivo que você cita na entrevista ao podcast: em qualquer outra parte do mundo nunca nos sentiremos verdadeiramente integrados e 100% à vontade nas mais diversas situações sociais. Me identifico com a cultura e com a sociabilidade do brasileiro.

Bilionário do Zero
7 meses atrás

Excelente artigo, já fiz algumas simulações e cheguei a conclusão parecida. Eu aproveitei o juro baixo e financiei a construção de uma casa pelo programa Minha Casa Minha Dívida 5 anos atrás, agora que já paguei grande parte das prestações com juros maiores, fico na dúvida se vale a pena vender pra quitar o financiamento, eu gosto bastante do lugar onde eu moro. Caso eu consiga vender no preço que imagino valer, teria um baita lucro, e neste caso acho que seria um bom negócio, mas pensando em moradia mesmo, concordo contigo, alugar seria mais vantagem.

Donizete
Donizete
7 meses atrás

Bom dia Tudo depende de valores …. Vamos aos fatos meu em particular, em 2007 comprei um imóvel financiado por 70 mil e paguei total de juros da caixa 120 mil em 2018 mudei de cidade 2019 vendi este mesmo imóvel por 220 mil 🤔. Hoje neste momento pago aluguel 1300 por mes, comprei um terreno com a venda do imóvel e vou financiar uma parte da construção de uma nova casa, valor das prestações da caixa por volta de 1600 reais ou seja 300 reais a mais que pago de aluguel atualmente…. O terreno que comprei para este imóvel… Leia mais »

Donizete
Donizete
Reply to  André
7 meses atrás

Ola Andre…. É realmente muitos cálculos e um pouco de sorte também… Esta valorização é uma estimativa das casas no próprio condominio, os valores que estão sendo vendidas hoje… Realmente é um custo (total estimado ate o fim das prestações que pretendo pagar o mais rápido possível) 600 mil para um valor atual de venda das casas de 700 , 800 mil…No primeiro imóvel não sinceramente não sei se perdi para inflação rsrsr ,paguei um total de 120 mil no fim de 2011 (compra em 2007) e a venda 220 em 2019, podem neste período sem boletos pode se disser… Leia mais »

Viver Sem Pressa
7 meses atrás

André do céu, que post maravilhoso, penso igual você. Comprei meu primeiro imóvel usando boa parte o FGTS, depois de 3 anos estava quitado. Tive a sorte de comprar na baixa e vender na alta. Passados alguns anos, já com o FGTS novamente acumulado, comprei uma kitnet. Ou seja, usei o FGTS 2 vezes para a compra de 2 imóveis em anos diferentes. Hoje moro de aluguel e é a melhor coisa que faço. A mobilidade, facilidade, a economia que faço pagando aluguel, além de não ter compromisso em ter que me preocupar com vizinhos, nem com as construções novas… Leia mais »

Investidor Renda Fixa bh
Investidor Renda Fixa bh
8 meses atrás

André,

Tb sou um defensor em alugar ao invés de comprar, mas aconteceu um caso comigo que me fez refletir. Acabamos de mudar para um apartamento maior para termos nosso primeiro filho e depois de 2 meses, o proprietário coloca o apartamento à venda. Essa insegurança sobre a possibilidade de ter que sair do apartamento com esposa grávida não está me fazendo bem.
E tem outro ponto que imóvel residencial e o único ativo impenhorável, vc sabia ?

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