Universidades públicas: a educação urge mais gestão, não dinheiro


Mais dinheiro para as universidades públicas e educação não elimina o seu grande problema: falta de gestão e produtividade

As ações de professores e funcionários exigindo mais dinheiro e benefícios, e não eficiência de gestão, levará a consequências inevitáveis: a privatização do sistema ou à uma brutal queda da qualidade de ensino.

Um claro exemplo do interesse privado acima do interesse público.


Demandar ações governamentais e mais qualidade em serviço públicos é fácil. Um pouco mais complicado, porém, é encontrar meios para financiar esses serviços, mesmo considerando a existência de uma excessiva arrecadação imposta pelo Estado a todos nós. Essa entidade hospeda um grande ralo que drena a maior parte dos recursos do país para o esgoto, cuja vazão é cada vez mais alargada por dois fatores: a corrupção e a incompetência plenamente visível (4 formas de gastar dinheiro).

Porém, independentemente do volume de recursos e do agente, a lógica segue um princípio bem famoso: “Não existe almoço grátis”. Conforme a demanda vai aumentando, a oferta, ou a arrecadação de impostos, terá de acompanhá-la, uma vez que aumento de produtividade está totalmente fora das prioridades do Estado. Um véu negro, entretanto, encobre a razão da maioria das pessoas e não permite o entendimento do óbvio: a arrecadação é influenciada pela economia do país.

Universidades públicas - menos dinheiro e mais gestão e produtividade.

Em alguns bons momentos, como em que vivemos entre os anos de 2004 e 2008, a arrecadação explodiu, menos é claro por medidas internas e mais pela explosão dos preços de commodities e níveis historicamente baixos das taxas de juros no exterior, fazendo com que o capital procurasse economias emergentes como o Brasil. Ainda assim não crescemos tanto quanto a maioria dos emergentes, mas esse crescimento foi o suficiente para fazer com que a maioria da população acreditasse na retomada do progresso do país. Totalmente alheios ao fato de que não houve em todos esses anos de governo do PT uma única reforma de base que preparasse o país para os próximos carnavais.

É necessária uma eficiência maior na gestão das universidades públicas

As universidades públicas possuem um orçamento vinculado, direta ou indiretamente, à arrecadação de impostos. As instituições de ensino paulistas recebem, por exemplo, 9,57% da arrecadação de ICMS do Estado de São Paulo, e estão sujeitas aos altos e baixos da economia. Nos últimos anos porém, tivemos uma grande demanda de reajustes salariais nas universidades, sempre apoiados por estudantes, funcionários e professores, apesar de seus salários já se encontrarem acima da média de mercado. Mas apesar dos avisos de pessoas que sabiam que para toda causa existe um efeito, esses aumentos causam uma grande comoção e aprovação popular.

As pessoas mais racionais, caracterizadas como insensíveis e mesquinhas pelos “progressistas” e paladinos do bem, apenas tentam mostrar o óbvio, mas são demonizadas por isso. Mas vejam a reportagem que saiu no dia 10/03 no Estadão: “Unesp e Unicamp economizam para evitar colapso financeiro igual ao da USP.   A USP estava na vanguarda dos aumentos salariais. Tanto que os funcionários e professores da Unicamp, instituição a qual sou ligado, estavam recentemente pedindo isonomia de salários em relação a aquela universidade, com o apoio da grande maioria do corpo discente.

Mas como a ignorância econômica impera nesse lado do mundo, ninguém compreende que a economia do país já estava em decadência desde quando Dilma assumiu, e que com a incompetência de sua equipe, tem sido cada vez mais agravada. Assim, a arrecadação já não acompanhava essa demanda de salários acima da inflação. E os números indecentes que a reportagem mostra já eram previsíveis: universidades públicas como a USP já vem consumindo 100% do orçamento em salários, que já está usando suas reservas para cobrir o orçamento. Você percebe quando uma situação está crítica quando o próprio Estado resolve cortar despesas, pois isso não é nada popular: “Crise financeira da USP congela obras e bloqueia contratações”.

Mesmo a Unicamp e Unesp gastam cerca de 90% de sua arrecadação em salários. Será que a diferença é suficiente para todas as demais demandas acadêmicas? Mesmo se considerarmos que as universidades públicas podem possuir outros financiamentos da iniciativa privada (sempre o capitalismo salvando a situação…), esse percentual não é um pouco bizarro? Alguém conhece uma empresa que gasta esse percentual em folha de salário? E olha que não é pouco dinheiro.

Aqui você pode checar o orçamento da Unicamp para 2020, bem como o resultado de 2019. O valor chega a mais de R$ 72.000,00 por aluno, sem contar as bolsas-pesquisa para pós-graduandos que vêm de outros recursos como a Fapesp! E essa ilha de ineficiência é tida como um dos exemplos no país. E nada mudou em 2020, quando a Unicamp está igualando salários de professores aposentados com ministros do Supremo Tribunal Federal

Nas universidades públicas federais, embora a busca dos dados seja bem mais difícil, a situação parece ainda pior, como na UnB e na UFPB, ambas entre as cinco maiores federais do país. O problema é que não temos a consciência de que, quando gastamos mais em uma ponta, teremos que gastar menos em outra, possivelmente em menos livros para bibliotecas, menos conservação em salas de aula, menos programas de apoio aos alunos (realmente) necessitados, enfim…   Não, a solução não é aumentar o volume de recursos para a educação. Não é exigir mais tributação da sociedade.

A grande barreira é as pessoas não aceitarem que é impossível multiplicar a riqueza dividindo-a, que a evolução na educação deve provir da produtividade, da melhoria da gestão, e não em receber mais verbas, que somadas ao modelo mental atual, engrossará ainda mais o volume do ralo da ineficiência e da corrupção. Enquanto não insistirmos nas demandas corretas, nada acontecerá com o péssimo nível de educação desse país.

Greves na universidades públicas: o foco errado e suas consequências

Estive hoje (2014) à tarde em uma aula na licenciatura da Unicamp para “reposição” das aulas do 1º semestre em função da greve na universidade, tema que preencheu, de fato, o maior período do encontro. A greve foi suspensa recentemente por tempo determinado pelos professores mas ainda está em vigor pelos funcionários. Saí decepcionado. A professora, provavelmente a melhor que tive no contexto das disciplinas da Faculdade de Educação, possui as mesmas ideias que estão levando esse país à bancarrota. Mas como diria Jack, vamos por partes…

Greve nas universidades - privatização - qualidade de ensino
Égio, égio, égio, eu quero privilégio!

Toda a primeira parte de seu discurso de justificação da greve foi sobre a (falta de) reposição salarial prevista para esse ano. A universidade alega gastar 96,5% de sua arrecadação em salários e não ter caixa para bancar o aumento. Claro que é uma notícia ruim para os professores e funcionários. Porém, apesar de nos últimos 12 anos os mesmos terem recebidos aumentos 152,52% contra uma inflação de 98,15%, a única saída encontrada foi a greve, prejudicando todos seus alunos e a comunidade atendida em suas instalações.

A atitude fica ainda mais vergonhosa quando lemos sobre todos os benefícios que os mesmos possuem e suas condições fenomenais de aposentadoria, conquistas muito, mas muito distantes do trabalhador comum. São “direitos adquiridos” que na verdade, converteram-se em um gigantesco privilégio. A educação que se ferre, mas o socialismo de seus privilégios não está em pauta. Socialismo só é interessante com os deveres e o dinheiro dos outros.

É o interesse privado acima do interesse público, colocado em marcha justamente pelo grupo que discursa de forma tão veemente quando a temática é justiça “social” e a supremacia da coletividade. Hipocrisia é pouco.

Depois de quase uma hora ouvindo a professora defender a greve, perguntei o óbvio nunca lembrado: “De onde virá o dinheiro, uma vez que o orçamento das universidades está no limite?”. A resposta foi que dentro do “movimento” estão sendo discutidos muitos problemas em repasse de verbas pelo governo estadual, reajuste de percentuais do ICMS destinados à universidade e a ineficiência da administração pública. A princípio, concordo apenas com o último. A administração pública é totalmente ineficiente e corrupta. Para quem lê esse blog, mesmo que eventualmente, sabe exatamente o que penso nesse ponto.

Porém, lendo os boletins do sindicato dos funcionários da Unicamp, a exigência é apenas salarial. Nada mais que isso. Apesar de todos os privilégios em vigor, querem mais grana em seus bolsos, e não interessa quem irá pagar por isso. No caso do sindicato dos professores da Unicamp, o salário e benefícios ocupam o destaque das demandas (16 itens), a exigência de mais dinheiro para o orçamento da universidade vem longe, com apenas 3 itens e somente um tímido item pedia transparência na gestão. Ou seja, está tudo invertido.

E mais uma informação: os professores encerraram parcialmente a greve simplesmente porque receberam um abono no bolso. Não li nada que será alterado algo sobre a transparência da gestão. Isso mostra o que é de fato, importante para eles.

Mas como pode-se exigir dinheiro de uma entidade que não o possui? Ou se possui, esconde? Onde estão as provas? Não seria mais lógico as demandas serem direcionadas em primeiro lugar a verificar a existência de recursos ou a viabilidade de aumentar a receita antes de pleitearem mais dinheiro?

Claro que a solução não passa por aumentar receitas, pois o que é ineficiente, será ainda mais. Tal ação só é possível tirando investimentos de outros setores, como saúde e segurança pública ou aumentando os impostos, algo que as universidades públicas já nos sugam em demasia. Cada aluno da Unicamp já custa mais de R$50.000,00 ao ano para a sociedade, oriundos de um recurso que afeta proporcionalmente as pessoas mais pobres, por provir de um imposto sobre o consumo.

O ponto é: precisa-se, inicialmente, ter o dinheiro para poder demandá-lo.

De qualquer forma, como escrevi na parte inicial desse texto, esse dinheiro não deve vir de mais repasses, mas sim de maior eficiência na gestão. Só assim será possível avaliar a possibilidade de continuar a dar aumentos e benefícios para os inconformados privilegiados. Avaliar se é possível manter mimos como o que foi aprovado ontem: funcionários da área da saúde da Unicamp agora não precisam mais trabalhar 40 ou 44 horas semanais como um trabalhador comum no Brasil. Trinta horas serão suficientes.

E para manter mais esse privilégio, será necessária a contratação de quase 300 funcionários a mais. Com toda essa crise! O saco não tem fundo? Como a universidade vai continuar pagando seus aposentados – que com certeza terão mais anos de aposentadoria do que trabalho, contratando novos funcionários? Como essa conta vai fechar?

Não vai. Se a discussão não se voltar de fato para uma melhor eficiência e produtividade, ela se voltará para a privatização, palavrinha que amedronta a todos. Apesar de todos os serviços privados que conhecermos serem melhores do que os públicos, calafrios sobem quando se comenta que algo será privatizado. Realmente não dá para entender esse modelo mental. Especificamente na educação, eles acreditam que existe um argumento contra essa tese no ensino superior no Brasil. Creio que esse é o único caso que podemos dizer que o público, em média, seria melhor do que o privado.

Mas será que essa realmente é a discussão certa ou sim a tupiniquinzação que o Brasil faz com seu capitalismo, incentivando a prática de lobbistas no congresso? Quanto à privatização da educação: o ensino fundamental e médio é pior nas escolas particulares? E as melhores universidades do mundo: são públicas ou privadas? E na América Latina, onde a USP foi ultrapassada por uma universidade… privada! Creio que o buraco é mais embaixo. Argumentos precisam ser melhores do que simplesmente afirmar que educação não é mercadoria ou que a privatização come criancinhas.

E jogando o jogo do pensamento esquerdista que tudo distorce, os professores e funcionários usam esse viés de privatização como uma ameaça, uma causa para a criação dessas crises nas universidades, mas não percebem que são suas atitudes na verdade, que estão a alimentar essa possibilidade. A privatização não é a CAUSA do problema, mas sim uma das possíveis CONSEQUÊNCIAS.

Se eles quiserem evitar isso, precisam mudar de atitude e prioridade já. Lutar por eficiência e transparência na gestão pública, e não apenas por dinheiro. Pensar no enorme privilégio que já possuem, em comparação com o restante dos trabalhadores da mesma sociedade. Ou solidariedade só se faz com o dinheiro dos outros? E procurar fazer desse modelo, algo perene, pois agindo dessa forma, não vai sobrar nada em qualidade de ensino, que aliás, já foi muito melhor. Experiência própria.

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